A CATL, maior fabricante de baterias do planeta, soltou a profecia: até 2030, metade do que vender será armazenamento de energia, não mais carro elétrico. O mercado financeiro recebeu a notícia como criança recebe doce, e os analistas saíram correndo para revisar planilhas e pintar de verde o gráfico do futuro. Olha, antes de aplaudir, vale uma pergunta simples que ninguém faz: por que justamente agora uma empresa chinesa consegue prever, com tanta precisão, que metade da sua receita virá de um produto que cinco anos atrás era nicho técnico? A resposta não está na genialidade dos engenheiros de Ningde. Está nos decretos, mandatos e subsídios que governos ocidentais assinaram na última década obrigando concessionárias de energia, fundos verdes e contribuintes a comprarem exatamente aquilo que a CATL produz.

Quer dizer, o que se chama de "previsão de mercado" é, na verdade, leitura de cardápio. A empresa não está adivinhando demanda espontânea de consumidores livres escolhendo a melhor solução energética. Está calculando o tamanho da bolada que os governos da Europa, Estados Unidos, Austrália e agora Brasil prometeram despejar em "transição energética" nos próximos cinco anos. Quando o regulador define que tal porcentagem da rede precisa ter armazenamento, quando o tesouro nacional banca crédito subsidiado para parque solar com bateria acoplada, quando o BNDES descobre que financiar lítio é o novo financiar etanol, o resultado é matematicamente inevitável: alguém vende muita bateria. A CATL apenas leu o contrato antes de assiná-lo.

Me diz uma coisa, de onde sai o lítio, o níquel, o cobalto e o manganês que vão dentro dessas baterias todas? Da China, do Congo trabalhado por crianças, do Chile com seus salares evaporando aquífero milenar, da Indonésia desmatando floresta para níquel. A mesma elite política que decretou a "emergência climática" para justificar o subsídio é a que finge não ver que a cadeia de suprimento dessa salvação ambiental é um inferno ecológico e humanitário concentrado em mãos de quem o Ocidente diz ser seu adversário estratégico. Trocou-se dependência do petróleo árabe pela dependência da bateria chinesa, e chamaram isso de soberania energética. É o tipo de piada que só convence quem é pago para rir.

O leitor desavisado pensa que armazenamento de energia é progresso técnico puro, daqueles que o engenho humano produz quando deixado em paz. Não é. É política industrial chinesa de longo prazo encontrando vácuo regulatório ocidental disfarçado de pauta verde. Enquanto os parlamentos europeus debatiam pronomes e os legisladores americanos brigavam por banheiro, Pequim mapeava reservas minerais, comprava mineradora na África, dominava refino de terras raras e construía capacidade fabril que hoje produz mais bateria por trimestre do que o resto do mundo somado em um ano. A previsão da CATL para 2030 não é otimismo, é inventário. Eles sabem o que produziram, sabem o que os governos prometeram comprar, e fizeram a conta.

No Brasil, o roteiro já está sendo copiado com aquela pressa típica de aluno atrasado. Discute-se "hub de armazenamento", "leilão de baterias", "incentivo à descarbonização da matriz", e cada uma dessas palavras esconde um cheque em branco do contribuinte para alguém. A conta da conta de luz vai subir, como sempre sobe quando o governo decide "modernizar" alguma coisa, e o brasileiro médio, que mal entende por que paga ICMS sobre energia, vai descobrir que agora paga também o aluguel de bateria chinesa instalada por concessionária privatizada operando concessão pública. A reciclagem dessas baterias, o passivo ambiental delas em vinte anos, o destino do lítio quando degradar, isso ninguém debate, porque debater estraga a festa do anúncio.

A CATL acertará a previsão, disso ninguém duvida. Acertará não porque leu o mercado, mas porque o mercado foi escrito para que ela acertasse. E quando 2030 chegar e metade da receita vier mesmo do armazenamento, os mesmos analistas que hoje aplaudem dirão que foi mérito do livre comércio, da inovação tecnológica e da visão empresarial. Mentira. Foi subsídio, mandato regulatório e captura de política pública em escala industrial. O resto é narrativa para boi dormir, enquanto o boi paga a conta da energia, do imposto e do sonho verde que enriquece sempre os mesmos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.