A CBOE, dona do maior mercado de opções dos Estados Unidos, anunciou que vai estender o horário de negociação de opções sobre um grupo selecionado de ações, atendendo, segundo o comunicado oficial, à "demanda crescente de investidores globais". Tradução para quem não fala corporatês, o pessoal de Tóquio, Cingapura e Frankfurt cansou de acordar no meio da madrugada para hedgear posição em Apple, Nvidia e Tesla, e finalmente alguém percebeu que o relógio de Chicago não é o relógio do mundo. A novidade é vendida como inovação. Inovação coisa nenhuma. É reconhecimento tardio de que o mercado real nunca dormiu, só a burocracia da bolsa é que insistia em apagar a luz.
Repare no detalhe que ninguém comenta. Por décadas, professores de finanças ensinaram em sala de aula que o preço de fechamento das dezesseis horas era o vetor sagrado da informação, o ponto cardeal a partir do qual se calculava risco, volatilidade e valor justo. Pois agora a própria bolsa rasga o manual e admite que aquele preço era apenas o ponto em que ela mesma resolvia fechar a porta. Toda a teoria do mercado eficiente, com suas equações gregas e seus modelos de Black e Scholes, dependia de uma premissa que era, no fundo, decisão administrativa de uma empresa privada com sede em Illinois. Eficiência por decreto de horário comercial, eis a beleza do negócio.
E aqui entra o que ninguém vê. Toda extensão de horário num mercado de opções não é favor ao pequeno investidor, é privilégio para quem tem infraestrutura para operar 24 horas. O sujeito que tem mesa em Nova York, Londres e Hong Kong, com algoritmos rodando em servidores colados ao datacenter da bolsa, esse vai sugar o spread de quem só consegue olhar o home broker depois do jantar. O varejo entra no balcão noturno achando que ganhou acesso, e na verdade virou liquidez gratuita para quem já estava lá esperando. A coisa se vende como democratização e se entrega como pasto.
Vale lembrar como esse mercado foi construído. Opções sobre ações só existem em escala porque, nos anos setenta, um grupo de operadores de commodities resolveu padronizar contratos que antes eram negociados em balcão sujo, no susto, entre conhecidos. A bolsa criou regras, exigiu margem, centralizou clearing, e em troca cobrou pedágio em cada negócio. Funcionou maravilhosamente, virou o maior mercado de derivativos do planeta. Só que toda infraestrutura que cresce demais começa a confundir suas próprias regras com leis da física. O horário de pregão era regra de gestão, virou dogma, e agora, quando a concorrência aperta vinda das criptos e das plataformas asiáticas que operam ininterruptamente, o dogma é silenciosamente sepultado.
O ponto mais saboroso é o que esse anúncio diz sobre o futuro. Se opções podem ser negociadas das quatro da manhã às oito da noite, por que não 24 horas? Se podem ser 24 horas em ação selecionada, por que não em todas? A resposta nunca foi técnica, sempre foi política, envolvendo sindicatos de operadores de pregão, market makers favorecidos pelo horário restrito, e reguladores que preferem dormir tranquilos. Cada minuto a mais de pregão é um minuto a menos de monopólio para alguém. E essa alguém sempre teve nome, endereço e lobista contratado em Washington.
Resta a pergunta que importa para o investidor brasileiro, que assiste a tudo isso pelo retrovisor enquanto a B3 ainda decide se vale a pena ter leilão de fechamento decente. Quando o mercado global opera ininterruptamente em derivativos sobre as ações que movem o mundo, o sujeito que opera só no horário do almoço de Brasília não é investidor, é espectador pagante. A modernidade chegou na bolsa de Chicago para confessar que o horário sagrado era ficção administrativa. Falta a nossa praça reconhecer que a única coisa eterna no mercado é o atraso de quem confunde regulação com lei natural.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.