A C&F Financial Corporation, holding bancária da Virgínia que ninguém em Brasília jamais ouviu falar, anunciou a venda de sua participação na Bearing Insurance Group e registrou um ganho de capital de US$ 8,3 milhões. Operação seca, sem espuma, sem coletiva de imprensa, sem ministro batendo palma. Apenas um ativo comprado por um valor, mantido por um tempo, e vendido por um valor maior. Quer dizer, exatamente aquilo que o mercado faz há séculos antes de inventarem a palavra stakeholder e o conceito de que o lucro precisa pedir desculpas por existir.
Olha, o detalhe que escapa ao leitor distraído é o seguinte. Esse ganho não veio de subsídio, não veio de incentivo fiscal, não veio de BNDES camarada, não veio de fundo soberano comprando ação na bacia das almas para salvar o amigo do presidente. Veio do julgamento privado de pessoas privadas alocando capital privado em um setor onde quem erra perde o próprio dinheiro, não o dinheiro do contribuinte. É essa a diferença que separa um banco regional de Tidewater, Virgínia, de qualquer banco estatal de país tropical que coleciona prejuízo com a mesma serenidade de quem coleciona selo.
E aqui entra a parte que os comentaristas econômicos da imprensa grande nunca explicam, porque se explicassem ficariam sem emprego. Cada dólar daquele ganho representa informação. Informação sobre o valor real de uma seguradora regional, informação sobre o apetite do comprador, informação sobre o momento do ciclo, informação sobre risco e retorno destilada em um número limpo. Nenhum comitê em nenhuma capital do mundo seria capaz de produzir essa informação artificialmente, porque a informação só nasce quando alguém coloca o próprio bolso em jogo. Quando o Estado tenta substituir esse processo, produz aquilo que conhecemos bem, planilha bonita, realidade torta.
Me diz uma coisa, quantas operações como essa acontecem todos os dias nos Estados Unidos enquanto o brasileiro médio é convencido por âncoras de telejornal de que o capitalismo é uma máquina de concentrar renda? A C&F é um banco minúsculo, com uma centena de agências espalhadas pelo interior, atendendo fazendeiro, dentista, dono de oficina. E mesmo nessa escala doméstica, ela gera valor, paga dividendo, capitaliza a comunidade, e ainda sobra para vender uma participação minoritária com lucro robusto. Não há plano quinquenal nisso. Há apenas pessoas livres tomando decisões com consequência.
O contraste com o nosso quintal é cômico, se não fosse trágico. Aqui o sujeito monta um banco e a primeira providência é correr atrás de carteira do Tesouro, depósito compulsório favorecido, BNDES como funding subsidiado, e o nome disso é educadamente chamado de modelo de negócios. No mundo onde o capital ainda significa alguma coisa, banco pequeno compra seguradora pequena, segura por anos, e vende quando o preço está bom. No nosso, banco grande estatal compra empresa quebrada, segura para sempre, e vende quando o governo seguinte precisa fingir que privatizou alguma coisa.
O que essa notícia ensina, sem precisar de adjetivo, é uma lição que custou séculos para a humanidade aprender e que os intelectuais de plantão tentam fazer todo mundo desaprender em uma geração. Capital é o trabalho acumulado de quem poupou em vez de gastar, investiu em vez de consumir, e correu risco em vez de pedir garantia ao Estado. Quando esse capital frutifica, oito milhões de dólares aparecem de uma vez no balanço de uma instituição que nem manchete merece. E quando esse capital é destruído pela inflação, pelo confisco, pela regulação asfixiante e pela inveja institucionalizada, o resultado é o que vemos da nossa janela todo dia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.