A Centene, gigante dos planos Medicaid e Obamacare, anunciou resultados do primeiro trimestre de 2026 acima do esperado e as ações reagiram bem. Tudo muito bonito na manchete, executivo sorrindo na teleconferência, analista de banco repetindo "beat" como papagaio treinado. Só que basta levantar o tapete para ver o que sustenta esse desempenho, e aí o brilho some. Mais de dois terços do faturamento dessa companhia vêm direta ou indiretamente do bolso do contribuinte americano, via repasses federais e estaduais para programas de saúde subsidiada. Isso não é empresa privada vencendo no mercado; isso é terceirização de gastança pública com margem garantida.
Quer dizer, quando o governo decide que vai "cuidar" da saúde dos pobres e dos idosos, alguém precisa operacionalizar a coisa, e é aí que entra o arranjo. Cria-se um programa estatal financiado por imposto compulsório, define-se que ele será executado por operadoras "privadas" credenciadas, e pronto: nasce uma casta de empresas cujo cliente real não é o paciente, é o burocrata em Washington que aprova o orçamento. O paciente é apenas o pretexto, o ticket que justifica o repasse. E o repasse, naturalmente, é calibrado para garantir lucratividade, porque se a operadora quebra, o esquema desmonta e o político perde o palanque do "acesso universal".
Olha, o truque é antigo e funciona em qualquer setor onde o Estado se mete fingindo benevolência. Educação superior americana virou máquina de inflação de mensalidade depois que o governo começou a garantir empréstimo estudantil. Saúde virou o setor mais caro do planeta depois que Washington começou a subsidiar planos. Imobiliário gerou a crise de 2008 depois que Fannie Mae e Freddie Mac transformaram hipoteca em produto público vestido de privado. Sempre o mesmo enredo: governo entra prometendo democratizar acesso, preço dispara, surgem intermediários gordos que sobrevivem do repasse, e o cidadão paga duas vezes, uma como contribuinte e outra como usuário.
Me diz uma coisa, que tipo de empresa privada precisa que o Congresso decida o tamanho do reembolso para saber se terá lucro no próximo trimestre? Que tipo de mercado livre depende de eleição presidencial para projetar receita? A Centene não compete por consumidor, ela faz lobby por orçamento. A diferença entre um "ganho de eficiência" e uma "ameaça existencial" nessa companhia não está no consultório, está no comitê do Senado que define a tabela do Medicaid. Isso tem nome, e o nome não é capitalismo. É capitalismo de compadrio com fachada bursátil, ações negociadas em Wall Street e dividendo pago com dinheiro tirado à força de quem trabalha.
O que ninguém aparece para discutir é o que se vê e o que não se vê nessa engrenagem. Vê-se o americano de baixa renda com cobertura, vê-se o executivo da operadora batendo metas, vê-se o analista festejando no terminal Bloomberg. Não se vê o pequeno empresário pagando imposto federal mais alto para custear o sistema, não se vê o médico independente sendo esmagado pelas tabelas impostas pelas grandes operadoras credenciadas, não se vê a inovação que jamais nasceu porque o setor inteiro está domesticado pelo regulador. A conta invisível é sempre maior que a visível, e quem paga é o de sempre.
O resultado trimestral é real, o lucro é real, a alegria do acionista é real. Real também é a fonte: cofre público abastecido por imposto compulsório, redirecionado por burocrata, executado por empresa amiga, e devolvido ao mercado financeiro em forma de earnings per share. Chamem isso do que quiserem, menos de livre mercado. Quando a saúde do trimestre depende mais do humor do Congresso do que do desempenho da empresa, o que está sendo precificado em bolsa não é eficiência, é proximidade com o poder.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.