A Central Puerto, maior geradora privada de energia da Argentina, protocolou na semana passada seu formulário 20-F junto à Securities and Exchange Commission, o relatório anual exigido de empresas estrangeiras listadas em bolsas americanas. Centenas de páginas, exércitos de auditores, advogados cobrando por hora cheia, consultores de compliance vivendo principescamente do medo regulatório alheio. Tudo isso para que um investidor de Iowa supostamente saiba o que se passa numa hidrelétrica em Mendoza. A papelada está entregue, o ritual cumprido, e ninguém parou um segundo para perguntar se aquele monumento de burocracia serve para alguma coisa além de sustentar o ecossistema que o produziu.
Quem paga a conta deste festival de formalismo? O acionista, sempre. Cada dólar gasto em consultoria regulatória é um dólar que não foi investido em turbina, em manutenção, em redução de tarifa. A SEC, criada em 1934 sob a promessa de proteger o pequeno investidor das maldades de Wall Street, virou ao longo das décadas exatamente o que toda agência reguladora vira: um filtro que beneficia os grandes, que conseguem absorver o custo do compliance, e tritura os pequenos, que não conseguem. O resultado é menos competição, menos empresas listadas, mais concentração. Quem disse que era para proteger o investidor não estava mentindo, estava apenas omitindo quem seria protegido de quem.
O que se vê é o relatório bonito, encadernado, certificado por auditor de quatro letras famosas. O que não se vê é a empresa argentina que não conseguiu chegar à bolsa americana porque o custo regulatório de manter o registro consome margem que a Argentina inflacionária já corrói por conta própria. O que não se vê é o capital que ficou parado porque o investidor pequeno não consegue mais comprar ações estrangeiras diretamente sem passar por intermediários que cobram comissão da comissão. O que não se vê, jamais, é a alocação de recursos que teria acontecido num mercado que confia em preços e contratos em vez de confiar em formulários carimbados.
A ironia gritante é que a Central Puerto opera num país onde o governo, durante décadas, congelou tarifas de energia, expropriou empresas, defaultou dívida soberana repetidas vezes e tratou contrato como sugestão. E ainda assim, o ritual exigido pelos americanos é o relatório padronizado, como se o problema do investidor fosse a falta de uma nota de rodapé sobre risco cambial. O risco real está estampado no peronismo crônico, na imprevisibilidade institucional, no fato de que cada governo argentino decide do zero o que vai fazer com o setor elétrico. Nenhum 20-F captura isso. A planilha não vê o que o jornal vê todo dia.
Mas a indústria do compliance precisa comer, e come bem. Cada nova regra gera empregos para quem a interpreta, cursos para quem a ensina, softwares para quem a automatiza, congressos para quem a discute. É uma classe inteira que vive da existência da regra, não do conteúdo dela. Se amanhã alguém propusesse simplificar tudo e exigir das empresas apenas o essencial, demonstrações financeiras auditadas e fatos relevantes em tempo real, surgiria do nada um coro indignado falando em proteção ao mercado, transparência, governança. Tradução: meu emprego depende dessa floresta de papel.
O investidor adulto, capaz de ler um balanço e formar juízo próprio, foi gradualmente substituído pela ficção do investidor incapaz que precisa ser tutelado por trezentas páginas de divulgação obrigatória. O resultado é que ele lê menos, confia mais no rótulo regulatório e fica mais despreparado para o golpe quando ele vem, porque o golpe sempre vem dentro do envelope timbrado, com selo de aprovação. Central Puerto entregou o que tinha que entregar. O mercado segue pretendendo que isso significa alguma coisa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.