Thomas Siebel, fundador e comandante da C3.ai, exerceu opções e despejou US$ 196.402 em ações da própria empresa no mercado. O movimento foi devidamente registrado no formulário regulatório, com a calma burocrática de quem sabe que ninguém vai ler. Mas leia você. Porque a história do mercado é a história de executivos vendendo no topo enquanto sustentam, em entrevistas calorosas, que o céu é o limite. O céu é o limite, sim, para a conta bancária deles.

O ritual é antigo e funciona assim. A empresa anuncia uma revolução, no caso a inteligência artificial corporativa, que vai mudar tudo, transformar o trabalho, redefinir o capitalismo. O CEO aparece em podcast, em conferência, em capa de revista, sempre com aquele ar messiânico de quem viu o futuro antes dos outros. O investidor de varejo, que descobriu o ticker pelo Reddit ou pelo influenciador da moda, compra a tese e o papel. E enquanto o papel sobe na pressão da narrativa, o homem da narrativa exerce opções a preço de banana e vende a preço de gente grande. Comprou da casa por centavos, vendeu pra você por dólares. Genial. Para ele.

Não há nada de ilegal aqui, é importante registrar antes que o departamento jurídico da Algoz acorde nervoso. Há, porém, algo de profundamente revelador. As opções de executivos são desenhadas exatamente para isso, para alinhar interesses, dizem os manuais de governança corporativa escritos por consultores que cobram cinco mil dólares a hora. Alinhar interesses com quem? Com o investidor que entrou ontem? Não. Com o próprio executivo, que tem acesso privilegiado ao calendário de resultados, ao pipeline de contratos, ao estado real do caixa, e que sabe quando o sino do recreio vai bater bem antes do garoto sentado na última fileira.

Siga o dinheiro e você verá o padrão. O CEO da C3.ai não é um caso isolado, é apenas o nome da semana. Em toda bolha tecnológica, e o setor de inteligência artificial está vivendo a sua, o insider liquida pedaços do seu pacote acionário enquanto o pequeno poupador é convencido a hipotecar a casa em nome do progresso. A diferença entre um e outro não é mérito, não é visão, não é mesmo coragem. É informação. O mercado financeiro é o último lugar onde a assimetria de informação ainda é tratada como virtude, desde que esteja devidamente carimbada pela CVM americana.

O detalhe que o noticiário institucional jamais conta é o seguinte. Quando o executivo vende, ele não está apenas realizando lucro pessoal, está enviando um sinal. E o sinal é gritado em silêncio. Se eu, que conheço esta empresa como ninguém, estou vendendo agora, o que isto diz sobre o preço atual? A resposta honesta o relatório do analista de banco nunca dará, porque o banco também ganha colocando a próxima oferta secundária da empresa no colo do cliente desavisado. O peixe podre cheira de todos os lados.

Fica a lição, que custa caro mas é gratuita para quem quiser aprender. Quando a porta dos fundos do prédio começar a girar com executivos saindo de mala, terno e ações vendidas, não é hora de entrar pela porta da frente animado com a propaganda no saguão. É hora de perguntar por que tantos estão saindo. Capitalismo de verdade premia quem entende incentivos, não quem se emociona com narrativas. E o incentivo aqui está escrito em letras garrafais, em dólar contado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.