Ken Griffin não saiu de Nova York chorando, saiu rindo. E agora anuncia uma expansão ainda maior do quartel-general da Citadel em Miami, num prédio que está sendo erguido na Brickell Avenue para abrigar milhares de funcionários e fundos que, somados, movimentam mais dinheiro do que o PIB de boa parte dos países da ONU. Quem acompanha o circo financeiro americano há mais de dez minutos sabe que isto não é mudança de endereço, é veredito. O cara mais bem informado do mercado está dizendo, em concreto armado, que apostar contra o estado da Flórida e contra o estado de Nova York é apostar contra o resultado de uma corrida em que um cavalo já cruzou a linha de chegada.
Olha, o argumento que sai da boca de prefeito democrata é sempre o mesmo: gente rica é egoísta, foge de imposto, abandona o povo. É uma tese comovente, só tem um problema, ela inverte causa e efeito. Não é o rico que abandona a cidade, é a cidade que se tornou inóspita por causa de uma classe política que confunde orçamento público com cofre próprio. Quando você empilha imposto estadual de quase onze por cento sobre imposto municipal sobre imposto federal sobre regulação financeira sobre regulação trabalhista sobre crime descontrolado sobre transporte público sucateado, e ainda exige aplauso, não está governando, está fazendo experimento social com o dinheiro alheio. A reação é tão previsível quanto água descendo ladeira.
Quer dizer, Miami não venceu Nova York por mérito próprio na proporção que a narrativa sugere. Miami venceu porque o adversário cometeu suicídio fiscal em câmera lenta. A Flórida não cobra imposto de renda estadual, não persegue empresário como se fosse criminoso por padrão, e tem governo que entende, mesmo que de forma tosca às vezes, que capital é volátil e foge ao primeiro sinal de hostilidade. O resto é consequência, gente abre escritório, gente compra apartamento, gente contrata, gente paga aluguel, e em cinco anos um pântano vira centro financeiro enquanto a antiga capital do dinheiro vira museu a céu aberto de prédios subutilizados.
Me diz uma coisa, alguém ainda finge não enxergar o padrão? Chicago perdeu Boeing, Citadel e Caterpillar. Califórnia perdeu Tesla, Oracle e Hewlett Packard Enterprise. Nova York está perdendo o que sempre foi sua razão de existir como metrópole, o capital financeiro. E em todos os casos, sem exceção, o destino foi um estado que cobra menos imposto, regula menos e respeita mais o contrato. Não é coincidência, é lei física. Capital se comporta como qualquer outro líquido, escoa pelo ponto de menor resistência. Quem tenta represar acaba afogado pela própria barragem quando ela rompe.
O detalhe delicioso que ninguém comenta é que Griffin doou centenas de milhões para causas em Nova York e em Chicago durante anos, hospitais, museus, universidades, polícia. Foi tratado como vilão mesmo assim. A esquerda americana descobriu, do jeito mais caro possível, que demonizar quem paga a conta tem consequência. O bilionário pode aguentar xingamento por algum tempo, por vaidade ou por inércia, mas em algum momento ele faz a planilha. E quando a planilha mostra que ficar custa bilhões em imposto e em produtividade perdida com funcionários presos em greves do metrô, a decisão se toma sozinha. A ingratidão tem preço, e quem cobra é o mercado.
O recado que esta notícia carrega vai muito além do imobiliário corporativo de Miami. Ele diz, em letras garrafais, que o experimento progressista urbano americano está bancarrotando suas próprias bases, que cidade não vive de discurso e sim de gente produtiva pagando conta, e que toda jurisdição que esquecer isto vai descobrir, na hora em que o caixa secar, que ideologia não paga folha. Os outros governadores e prefeitos do mundo deveriam estar tomando nota agora, inclusive os daqui de baixo do equador, porque a fila para repetir o erro de Nova York anda rápido. E quando o capital vai embora, ele raramente volta. Bandeira fincada em Miami é bandeira que não se desfralda, é cemitério para a arrogância de quem achou que o ganso dos ovos de ouro era um pet doméstico.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.