Repare na cena com calma, porque ela diz muito mais do que parece. O presidente da Fold Holdings, empresa listada e regulada nos conformes, foi obrigado a vender oito mil e quarenta e oito dólares em ações próprias para cobrir obrigações tributárias decorrentes da vesting de papéis recebidos como remuneração. Traduzindo do juridiquês corporativo para o português do botequim, o sujeito ganhou ações como parte do salário, e antes mesmo de poder usufruir do que recebeu, teve que liquidar uma fatia para entregar ao fisco. O Estado nem esperou o dinheiro virar dinheiro de verdade; meteu a mão enquanto ainda era promessa contábil.

Existe uma elegância perversa nesse arranjo. O executivo é remunerado em ações porque a tese é alinhá-lo ao crescimento de longo prazo da empresa, fazê-lo pensar como sócio, sofrer e prosperar junto com o acionista comum. Lindo no papel. Só que o governo entra na sala antes do brinde, antes do champanhe, antes mesmo de o sujeito decidir se vai segurar ou vender o papel. A tributação incide no momento do vesting, ou seja, quando a ação é entregue, e o valor devido tem que ser pago em moeda corrente, não em promessa. Resultado, o próprio mecanismo desenhado para criar dono acaba forçando o dono a desinvestir. É autofagia regulatória.

E é aqui que a coisa fica interessante para quem gosta de seguir o rastro do dinheiro. Quando você compra uma ação na bolsa, está implicitamente entrando numa sociedade onde o sócio mais voraz nunca aparece nas assembleias, nunca arrisca capital, nunca dorme mal na noite anterior a um lançamento, e mesmo assim leva a primeira fatia do bolo. Esse sócio é o Tesouro, e sua participação é compulsória, retroativa e crescente. O CEO da Fold só fez visível, pela obrigação de divulgação aos reguladores, aquilo que acontece todos os dias com milhões de trabalhadores que recebem bônus em ações, RSUs, stock options e congêneres pelo mundo afora.

Veja o paradoxo gigantesco que ninguém comenta. O mesmo Estado que passa décadas pregando o engajamento de longo prazo, a cultura de propriedade entre executivos, o alinhamento de interesses entre gestores e acionistas, é exatamente quem desmonta esse alinhamento ao exigir liquidação imediata para satisfazer o leão. Cria-se o incentivo, tributa-se o incentivo, e depois reclama-se que o capitalismo é de curto prazo. Quem fabricou o curto prazo foi a alíquota, não o mercado.

Há ainda o detalhe quase cômico do valor. Oito mil dólares. Para um CEO de empresa listada, é troco de táxi. Mas a operação precisou ser registrada, divulgada, comunicada aos órgãos reguladores, transformada em fato relevante e publicada por agências de notícias mundo afora. A máquina burocrática inteira girou para processar uma venda forçada que existe unicamente porque outra parte da mesma máquina exigiu o pagamento. O governo cria o problema, o governo exige a solução, e o mercado paga a conta da fricção. Multiplique isso por todos os executivos de todas as empresas listadas do planeta e você terá uma noção do peso morto que essa engenharia tributária impõe à formação de capital.

No fundo, o episódio é um pequeno cartão postal de uma verdade maior. Numa economia onde o fisco tem prioridade sobre o investidor, sobre o trabalhador e até sobre o dono da empresa, a propriedade privada vira ficção contábil. Você não possui suas ações, possui o saldo líquido depois que o Estado decidiu quanto quer levar. E o pior, decidiu antes de você sequer ter tido a chance de discordar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.