Ryan Cohen, o presidente da GameStop, aquele mesmo que herdou a companhia depois do circo da GameStop em 2021 e desde então passou a sentar em cima de uma montanha de caixa que faria inveja a banco médio, agora oferece cinquenta e seis bilhões de dólares pelo eBay. A notícia caiu no Wall Street Journal e o mercado piscou, fingiu surpresa, e voltou a fingir que a precificação dos ativos americanos faz algum sentido. Não faz. E é exatamente por isso que o movimento é interessante.
Olha, primeiro fato concreto: a GameStop vale hoje, em bolsa, mais do que qualquer múltiplo razoável de seu fluxo de caixa justificaria. A companhia virou um veículo financeiro com uma loja de videogames anexada, não o contrário. Cohen acumulou caixa vendendo ações sobrevalorizadas para uma legião de pequenos investidores que ainda acreditam que estão lutando contra Wall Street, quando na prática estão financiando a próxima aquisição do próprio Cohen. Dinheiro que veio do entusiasmo agora vai comprar uma plataforma de leilões em decadência. Quem paga a conta dessa engenharia? O sujeito do fórum que comprou ação a quarenta e segura há quatro anos achando que vai à lua.
Segundo: por que cinquenta e seis bilhões pelo eBay, uma plataforma que perdeu relevância para Amazon, Mercado Livre, Shopify e até para o Facebook Marketplace? Porque numa economia onde o juro real foi mantido artificialmente baixo por uma década e meia, e onde a expansão monetária inflou o preço de todo ativo que tem ticker, faz sentido trocar dinheiro que está derretendo por qualquer coisa que pareça ter substância. O eBay tem fluxo de caixa, tem marca, tem inércia de consumidor. Numa economia saudável, com moeda saudável, ninguém pagaria esse preço. Mas a moeda não é saudável, e o que estamos vendo é o sintoma clássico de capital procurando refúgio em ativos reais antes que a próxima rodada de impressão chegue.
O que ninguém na imprensa financeira quer dizer é o óbvio. Esse tipo de movimento, fusões megalomaníacas em setores maduros, com prêmios absurdos sobre o valor de mercado, é exatamente o que aparece na fase tardia de um ciclo de crédito. Não é vitalidade empresarial, é desespero patrimonial disfarçado de visão estratégica. O dinheiro fácil precisa ir para algum lugar, e quando os juros não punem mais a má alocação, a má alocação vira regra. A história está cheia desses ciclos. Anos vinte, anos sessenta, anos noventa, anos dois mil. Sempre o mesmo enredo: capital barato, aquisição em série, narrativa de sinergia, e depois a ressaca.
Me diz uma coisa: o que Cohen entrega de valor real ao consumidor americano comprando o eBay? Nada. Não baixa preço, não melhora produto, não expande oferta. O que acontece é uma reorganização patrimonial que transfere bilhões de uma classe de acionistas para outra, gera honorários gordos para bancos de investimento, advogados, consultores, e produz manchete para alimentar o próximo ciclo de especulação. O usuário do eBay vai continuar vendendo carrinho usado e ganhando o mesmo. O lojista da GameStop vai continuar fechando. E o americano médio, esse vai descobrir nos próximos anos que o dólar no bolso dele perdeu mais valor enquanto Cohen brincava de Monopoly com dinheiro emprestado da inflação futura.
O recado dessa notícia não é sobre videogame nem sobre leilão online. É sobre um sistema financeiro onde o sinal mais alto que o mercado emite não é mais a produtividade, é a proximidade da torneira monetária. Quem está perto da torneira compra impérios. Quem está longe paga a fatura no supermercado. E quando o castelo desmoronar, vão dizer que foi imprevisível, vão chamar de cisne negro, vão pedir mais um resgate. O ciclo se repete porque ninguém quer admitir que o problema não é a queda, é a festa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.