Mary Barra, a senhora que há mais de uma década dirige a General Motors e que vive repetindo em palco corporativo que a empresa está numa transição histórica rumo à eletrificação, acaba de vender trinta e sete milhões e duzentos mil dólares em ações da própria companhia. Não foi venda forçada, não foi exercício programado de stock options trivial, foi descarga. E quando o executivo principal de uma corporação descarrega esse volume de papel, a primeira pergunta que qualquer pessoa honesta faz é simples, por que justamente agora.

O discurso oficial é sempre o mesmo, diversificação patrimonial, planejamento sucessório, compromissos pessoais, blá blá blá. É o equivalente corporativo do político que jura nunca ter tocado num centavo público enquanto compra a terceira fazenda em dinheiro vivo. Olha, o executivo que acredita no futuro da própria empresa não vende, acumula. Quem segura ações no longo prazo aposta na tese; quem vende em bloco está realizando lucro antes que o lucro evapore. Essa é a regra mais antiga do mercado, e ela vale igualzinho em Detroit, em São Paulo ou em Xangai.

E o contexto da General Motors merece um momento de honestidade brutal. A empresa apostou pesado na transição elétrica embalada por subsídios bilionários do governo americano, créditos fiscais, regulações ambientais que forçaram a indústria inteira a comprar um produto que o consumidor ainda não decidiu se quer. Quando a tese de negócio depende de Washington manter aberta a torneira do dinheiro alheio, você não está mais vendendo carros, está vendendo lobby. E lobby muda de humor toda eleição.

Some a isso a concorrência chinesa que produz carro elétrico pela metade do preço, as vendas decepcionantes da divisão elétrica que já forçaram a GM a engavetar metas que ela mesma anunciou com pompa, os prejuízos bilionários no Cruise, o robotáxi que prometia revolucionar o transporte urbano e virou monumento à arrogância da engenharia social financiada por acionista. Quem está dentro da sala de reunião sabe o tamanho do rombo. Quem está fora compra ação no escuro acreditando no comunicado de imprensa.

A coisa mais reveladora do capitalismo de compadrio moderno é exatamente isto, a executiva que construiu sua estratégia pedindo subsídio público, que orientou a empresa segundo as preferências ideológicas de Washington, que apostou bilhões de dinheiro de acionista numa transição imposta por decreto, é a mesma que agora realiza o lucro em caixa e deixa o investidor pequeno segurando a fatura. Quando o jogo é arranjado entre governo e corporação, sempre tem alguém pagando a conta, e nunca é quem está na foto do anúncio.

O recado para quem ainda enxerga é direto, observe as ações de quem comanda, não as palavras. O capitão que vende a cabine antes da viagem terminar sabe de algo que o folheto promocional não conta. E o investidor que continuar acreditando que a transição elétrica subsidiada vai entregar o retorno prometido vai aprender, da forma cara, que aposta financiada por dinheiro do contribuinte termina sempre do mesmo jeito, com o contribuinte pagando duas vezes, uma como pagador de imposto, outra como acionista enganado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.