Brett Monia, presidente-executivo da Ionis Pharmaceuticals, desovou US$ 356.012 em ações da empresa que ele próprio comanda, e o mercado, como de praxe, deu de ombros. Afinal, vender papel da própria casa virou esporte olímpico entre executivos americanos, atividade tão rotineira quanto pedir café no Starbucks da esquina. O detalhe interessante, aquele que os relatórios da Bloomberg não sublinham, é que o sujeito que tem a informação mais íntima sobre o futuro do negócio resolveu trocar pedaços dele por dinheiro vivo justamente agora. Coincidência, certamente. Sempre é.
O argumento padrão dos defensores dessas transações é conhecido de cor: "diversificação patrimonial", "planejamento tributário", "exercício programado de opções". É o tipo de explicação que se aceita num jantar de gala, mas que num botequim qualquer faria rir até o garçom. Me diz uma coisa, se a tese da empresa é tão promissora, se os pipelines de medicamentos são tão revolucionários, por que o cara que mais sabe do assunto está convertendo papel em cash? A resposta honesta nunca aparece no comunicado oficial, porque a função do comunicado oficial é exatamente impedir que ela apareça.
Há algo de profundamente perverso no arranjo institucional que permite isso. O sujeito recebe ações como remuneração, paga imposto menor do que pagaria sobre salário, vende quando bem entende e ainda aparece na capa de revistas como gênio do capitalismo. O acionista minoritário, esse coitado que comprou cota num fundo recomendado pelo gerente do banco, não tem nem o privilégio de saber o que o CEO sabe nem o poder de fazer o que o CEO faz. Quem fica com a conta quando a tese murcha? Adivinhe. Não é o executivo, que já transformou suas opções em imóvel em Aspen.
O setor farmacêutico, aliás, é especialista nesse balé. Vive de promessas regulatórias, ensaios clínicos em fase três, FDA aprovando ou não aprovando, e cada notícia move o papel uns vinte por cento para cima ou para baixo num dia. Quem está dentro sabe quando o relatório vai sair. Quem está fora descobre pelo Twitter quinze minutos depois do estrago. A SEC americana, naturalmente, fica de braços cruzados, porque insider trading só é crime quando o insider é desorganizado o suficiente para deixar rastro. Os organizados usam os tais planos 10b5-1, que são basicamente uma licença poética para vender com antecedência calculada.
O que se vê é o ganho do executivo, os 356 mil dólares depositados, o jatinho corporativo cruzando o céu da Califórnia. O que não se vê é a corrosão da confiança no mercado de capitais, o pequeno poupador que vai parar de investir porque sente, sem conseguir articular, que o jogo é viciado, a poupança que vai para a especulação imobiliária ou para o ouro porque ninguém quer mais ser o último a segurar a batata quente. Capitalismo de verdade é alinhamento de incentivos entre quem decide e quem investe. Capitalismo de compadrio é o que está aí, com CEOs vendendo e analistas recomendando comprar.
No fim, a única lição que sobra do episódio é a mais antiga de todas: observe o que as pessoas fazem com o dinheiro delas, nunca o que dizem sobre o seu. Brett Monia pode continuar dando entrevistas otimistas sobre a Ionis até o ano que vem, mas a planilha do banco dele já contou outra história. E essa história, ao contrário das apresentações em PowerPoint nas conferências de Wall Street, não mente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.