O fato é simples e os fatos simples são sempre os mais desconfortáveis. O principal executivo da MP Materials, a queridinha do establishment americano para a tal da "independência mineral" frente à China, acabou de se desfazer de dezenove vírgula dois milhões de dólares em papéis da companhia que ele mesmo dirige. Não foi o porteiro, não foi um diretor de segunda linha, não foi um fundo rebalanceando carteira. Foi o homem que senta na cadeira principal, que assina os releases, que aparece sorrindo nas entrevistas da CNBC falando sobre o futuro glorioso do neodímio americano. Esse mesmo sujeito, de posse da melhor informação possível sobre a empresa, decidiu que era hora de transformar papel em dinheiro vivo.

Me diz uma coisa: se o filé-mignon está tão bom assim, por que o chef está pedindo hambúrguer? A narrativa oficial do setor de terras raras nos Estados Unidos é um conto de fadas geopolítico. O governo americano, depois de décadas terceirizando mineração para a China por preguiça regulatória e obsessão ambiental seletiva, acordou em pânico e resolveu subsidiar, proteger, garantir, comprar e praticamente abraçar a MP Materials como ativo estratégico. O Pentágono virou cliente preferencial. O Departamento de Defesa despejou centenas de milhões em contratos e participação acionária. Tudo isso deveria significar vento a favor eterno para o papel. E, no entanto, o capitão pula do barco com dezenove milhões no bolso.

Aqui está o truque que o noticiário financeiro não quer explicar para você. Quando o Estado escolhe um campeão nacional, o campeão deixa de ser uma empresa e vira um arranjo. E todo arranjo entre capital privado e dinheiro público segue o mesmo padrão histórico, da Companhia das Índias Orientais aos bancos resgatados em 2008: lucro privado, risco socializado, saída antecipada para quem tem a informação primeiro. O acionista de varejo, aquele que leu a reportagem da Bloomberg sobre "renascimento das terras raras americanas" e comprou com convicção patriótica, é o último a saber e o primeiro a pagar a conta quando a maré virar.

Olha, não estou dizendo que o homem cometeu crime. Venda programada, plano 10b5-1, tudo dentro da lei, advogados caríssimos carimbando cada vírgula. A questão não é jurídica, é epistemológica. Quem tem melhor informação do que o CEO sobre o futuro real de uma empresa que depende umbilicalmente de contratos governamentais, subsídios, tarifas e vontade política de Washington? Ninguém. E quando esse alguém, com toda essa informação privilegiada pela posição, decide converter vinte milhões de promessa em vinte milhões de dólar verde na conta, o recado está dado para quem souber ler.

A lição mais ampla é aquela que o brasileiro deveria ter tatuada no braço depois de BNDES, Petrobras, campeões nacionais do Lula I e demais aventuras do capitalismo de compadrio tropical. Empresa que depende do governo não é empresa, é departamento estatal com ações na bolsa. O preço dela não reflete produtividade, reflete proximidade com o poder. E proximidade com o poder é o ativo mais volátil que existe, porque muda com a eleição, com o humor do Congresso, com a próxima crise, com o próximo escândalo. Quem está dentro sabe disso. Quem está fora acredita no press release.

Terras raras não são raras. O que é raro é um CEO vendendo papel próprio em pleno tsunami de otimismo oficial e os analistas fingindo que não viram.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.