A notícia chegou embalada em papel de presente. O executivo-chefe da Novo Nordisk anuncia, com aquela serenidade escandinava que confunde investidor desavisado, que as pílulas orais para emagrecimento devem abocanhar metade do mercado global até o fim da década. Os analistas de Wall Street bateram palmas. As ações subiram. E ninguém, absolutamente ninguém, parou para perguntar o mais elementar: por que uma única empresa está sentada em cima do maior filão farmacêutico da história recente, e quem foi que autorizou esse arranjo?

A resposta está onde sempre esteve, escondida à luz do dia. Não existe milagre bioquímico aqui, existe milagre regulatório. A molécula que virou febre global, a mesma que fez a Novo Nordisk ultrapassar em valor de mercado a economia inteira da Dinamarca, é produto de um sistema de patentes que privatiza lucro e socializa risco de pesquisa, de agências sanitárias que decidem quem entra e quem não entra no clube, e de sistemas de saúde ocidentais que, engasgados pela obesidade que eles mesmos ajudaram a produzir com décadas de pirâmide alimentar patrocinada, agora se rendem à solução por assinatura. Quem paga? O contribuinte, sempre. Quem lucra? Um cartel de dois ou três nomes.

Repare no truque. A empresa não fala em cura, fala em captura de mercado. A linguagem já entrega o jogo. Cura seria fim do freguês, captura é freguês cativo. A pílula não é o remédio, é o modelo de negócio. Injeção semanal era ruim porque exigia agulha e refrigeração; o comprimido diário é melhor porque cabe no bolso, na rotina, no hábito. O que se vende não é magreza, é dependência elegante, com receita médica e cobertura de convênio. E quando metade do mercado ocidental estiver tomando o mesmo comprimido diário para o resto da vida, ninguém mais vai perguntar se aquilo é medicina ou se é o mais lucrativo sistema de mensalidade já inventado desde o cigarro, com a vantagem de ter o médico como vendedor terceirizado.

E aqui entra a parte que os jornais econômicos jamais publicam. O mesmo Estado que passou meio século dizendo para você comer carboidrato refinado seis vezes ao dia, o mesmo Estado que subsidia milho, soja e xarope de glicose que engordou continentes inteiros, é agora o Estado que vai comprar, com o seu imposto, a solução patenteada para o problema que ele criou. É o ciclo perfeito. Cria-se a doença com política pública, vende-se o remédio com política pública, e o cidadão paga duas vezes: uma para engordar, outra para emagrecer. No meio, o acionista da farmacêutica agradece, o burocrata da agência regulatória prepara o currículo para o próximo emprego no setor privado, e o médico assina a receita porque foi isso que aprenderam a assinar.

Existe uma palavra antiga para esse arranjo, e não é capitalismo. Capitalismo pressupõe concorrência, entrada livre, preço formado no encontro entre quem oferece e quem compra. O que se vê aqui é o oposto: barreira de entrada blindada por patente, preço fixado por monopólio protegido, demanda induzida por sistema público, e consumidor sem alternativa porque as versões genéricas só chegam quando o filão já foi drenado. Isso tem nome, e o nome é mercantilismo de bata branca. É o mesmo esquema das corporações do século dezessete, só que agora com marketing digital e endosso de celebridade em Hollywood.

O mais irônico, e aqui é onde o riso fica amargo, é que a solução para a obesidade sempre esteve disponível, é gratuita, é anterior à farmacologia e é conhecida há milênios: comer menos, comer comida de verdade, mexer o corpo. Só que ninguém ganha dinheiro com isso. Ninguém patenteia caminhada. Ninguém coloca no balanço trimestral o lucro da disciplina alimentar. Por isso a caminhada foi transformada em problema de saúde pública que só a indústria pode resolver, e a disciplina foi vendida como opressão cultural que a ciência veio libertar. O comprimido é o triunfo final dessa inversão: você não precisa mais se governar, alguém governa por você, mediante pagamento mensal, com o aval do médico e o aplauso do investidor.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.