Eric Brock, o presidente executivo da Ondas Holdings, vendeu US$ 31,9 milhões em ações da empresa que ele próprio comanda. Não foi um almoço de negócios, não foi uma reestruturação patrimonial casual, foi uma operação cirúrgica de quem decidiu transformar papel em dinheiro vivo enquanto ainda dava tempo. E olha, quando o sujeito que assina os relatórios, que preside as reuniões de conselho, que conhece o caixa real e os contratos engavetados resolve sacar essa quantia, o mínimo que o investidor honesto precisa fazer é parar e perguntar uma coisa simples: por que agora?

O mercado de capitais opera sob uma assimetria de informação que ninguém gosta de discutir em voz alta. O presidente sabe o que o acionista minoritário não sabe. Ele tem acesso ao pipeline real de contratos, à saúde dos balanços que ainda não foram divulgados, ao humor dos grandes clientes, à viabilidade de cada promessa contida nos releases de imprensa. Quando ele vende, ele não está apostando contra a empresa por capricho, ele está exercendo o único direito que importa em mercado, que é o direito de quem sabe mais agir sobre o que sabe. O problema não é a venda em si, é a coreografia que cerca a venda e que mantém o pequeno investidor dançando enquanto a banda se prepara para ir embora.

Veja a mecânica do espetáculo. A empresa solta comunicados grandiosos sobre drones, sobre tecnologia de rede privada sem fio, sobre o futuro da conectividade industrial. O analista compra, o influenciador financeiro do YouTube compra, o aposentado que quer multiplicar o que sobrou compra. Enquanto isso, lá em cima, no andar onde se conhece o tamanho real do prejuízo operacional acumulado, o homem que comanda tudo está organizando a planilha pessoal dele para retirar dezenas de milhões antes que a maré vire. Não é roubo no sentido técnico, é legal, é declarado, é registrado na SEC. Mas é a confissão silenciosa de que o entusiasmo está do lado de quem compra, e o realismo está do lado de quem vende.

O capitalismo de verdade depende de regras claras e de informação simétrica, e esses são exatamente os dois ingredientes que o capitalismo de prospecto tecnológico não entrega. Empresas de small cap em setores hypados vivem de narrativa, e narrativa é justamente o que se constrói para empurrar papel enquanto o insider faz o caminho inverso. Não estamos diante de uma exceção, estamos diante de um padrão que se repete em cada ciclo, dos pontocom dos anos noventa às fintechs da pandemia, das maconhas canadenses às empresas de veículo elétrico que nunca entregaram um carro. O roteiro é o mesmo, muda apenas o produto que serve de fantasia.

E aqui aparece o ponto que ninguém quer encarar de frente. O regulador existe, a CVM americana existe, as regras de disclosure existem, e mesmo assim o pequeno investidor sempre chega depois. Não porque o regulador seja incompetente, mas porque nenhuma regulação consegue substituir o discernimento de quem coloca o próprio dinheiro em jogo. A lição, antiga como o comércio, é que o gestor que vende quase trinta e dois milhões em ações da própria empresa está te dizendo algo, e o seu trabalho é ouvir. Não importa o release que sair amanhã, não importa o vídeo motivacional do CEO no LinkedIn, não importa a projeção de receita para 2028. O fato é o fato, e o fato é que ele saiu.

Quem entende mercado entende que os atos falam mais alto que os relatórios trimestrais. O dinheiro andou, e andou na direção contrária à narrativa oficial. Cabe ao investidor decidir se quer continuar acreditando no folheto ou se prefere prestar atenção em quem está saindo pela porta dos fundos com a mala cheia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.