O fato é simples e diz tudo. Patrick Conway, CEO da Optum, vendeu US$ 284 mil em ações da UnitedHealth Group em pleno momento de turbulência regulatória, com o Departamento de Justiça americano farejando o conglomerado por práticas de Medicare Advantage e o mercado precificando processos antitruste que se acumulam como louça suja na pia. Quando o capitão começa a esvaziar o cofre antes de o navio atracar, o passageiro inteligente presta atenção. O mercado, esse organismo que junta a inteligência dispersa de milhões de pessoas, raramente erra ao interpretar essas movimentações: insider vendendo é insider falando sem precisar abrir a boca.
A UnitedHealth, para quem não acompanha, é o maior plano de saúde dos Estados Unidos e a Optum é o tentáculo que faz a empresa ser, ao mesmo tempo, a seguradora que paga, a farmácia que vende, a clínica que atende e o sistema de dados que decide tudo. Quer dizer, é uma jogada de monopólio vertical que faria corar qualquer barão do petróleo do século dezenove. E o americano, coitado, paga o seguro de saúde mais caro do planeta para receber um atendimento que, em métrica de expectativa de vida, perde para Cuba. Não é falha de mercado. É falha de mercado capturado por regulação que blinda os gigantes e tritura os pequenos.
Olha, há aqui uma lição que ninguém na imprensa econômica brasileira gosta de tocar. O sistema de saúde americano não é capitalismo. É capitalismo de compadrio na sua versão hospitalar, com lobby bilionário em Washington garantindo que o Obamacare, vendido como solução social, tenha sido escrito pelas próprias seguradoras que ele supostamente regularia. Quem ganhou? As United, as Anthem, as Cigna. Quem perdeu? O cidadão comum, que viu seu plano dobrar de preço enquanto o governo aplaudia a si mesmo por ter resolvido o problema. A cada nova camada de regulação, uma nova oportunidade de captura. A cada mandato presidencial, uma nova rodada de mesa farta para os lobistas e migalhas para o pagador de impostos.
E aí entra o detalhe delicioso. Patrick Conway, antes de ser CEO da Optum, foi diretor do CMS, o órgão federal que regula Medicare e Medicaid. Quer dizer, o sujeito desenhou as regras como burocrata e depois foi colher os frutos das regras como executivo da maior beneficiária dessas mesmas regras. Isso tem nome, e o nome não é coincidência. É a porta giratória que transforma o Estado regulador em bandeja de bônus para quem soube esperar o tempo certo de pular o muro. Siga o dinheiro e você entende a regulação. Siga a regulação e você entende quem ficou rico.
O que se vê na manchete é a venda de US$ 284 mil. O que não se vê é o sistema inteiro construído para que essa venda seja possível, vantajosa e oportuna. Não se vê o pequeno empresário que fechou a clínica porque não consegue competir com a Optum, que é seguradora e prestadora ao mesmo tempo. Não se vê o paciente que recebeu negativa de cobertura processada por algoritmo da própria empresa que deveria pagar. Não se vê o médico que virou empregado porque o consultório independente foi engolido pela rede vertical. Tudo isso está no preço da ação que o CEO acaba de descarregar. E o aviso é claro para quem quiser ouvir: quem está dentro acha que vale menos do que o mercado ainda está pagando.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que o problema da saúde americana se resolve com mais governo? Cada nova proposta de Medicare for All é, na prática, uma nova proposta de cheque em branco para os mesmos conglomerados que financiam a campanha de quem propõe. A doença é institucional, e o remédio anunciado é uma dose maior do veneno. A liberdade de escolher médico, plano e tratamento foi sequestrada décadas atrás, e cada geração americana se acostuma um pouco mais com a algema, achando que é pulseira de hospital. Patrick Conway sabe exatamente onde a corda está mais esticada. Por isso, está vendendo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.