Olha, existe uma assimetria de informação que nenhum manual de finanças corporativas consegue disfarçar, e ela aparece com força bruta toda vez que um executivo de alto escalão decide transformar papel em dinheiro vivo. William Hendricks, presidente-executivo da Patterson-UTI, acaba de vender 2,96 milhões de dólares em ações da companhia que ele próprio comanda. Não foi exercício de opção forçado por vencimento, não foi liquidação obrigatória, não foi diversificação de carteira recomendada por consultor familiar. Foi uma decisão deliberada de quem senta na cadeira mais alta da empresa, vê os números antes do mercado ver, conhece os contratos antes do analista do Itaú abrir a planilha, e mesmo assim concluiu que era melhor ter dólar na conta do que ação no portfólio.
O setor de perfuração e serviços para óleo e gás vive um daqueles momentos em que a narrativa pública e a planilha interna conversam línguas diferentes. Lá fora, o discurso é de transição energética, de pico do petróleo, de pressão regulatória sobre combustíveis fósseis. Dentro das salas de reunião das empresas de perfuração, a conversa é sobre margens espremidas, capex contido pelas grandes operadoras, taxa de utilização de sondas oscilando ao sabor do humor da OPEP, e custos operacionais que sobem com inflação americana enquanto o preço do barril não acompanha. O CEO sabe disso. O acionista que comprou pelo aplicativo da corretora ouvindo influencer de finanças não sabe.
Existe uma máxima velha como o capitalismo, que diz mais ou menos o seguinte: insiders vendem por mil razões, mas compram por uma só. Quando o sujeito que assina os relatórios trimestrais converte três milhões em liquidez imediata, ele está te contando algo sem dizer nada. Pode ser planejamento sucessório, pode ser divórcio, pode ser compra de imóvel, pode ser realocação tributária antes de mudança na alíquota americana sobre ganho de capital. Pode também ser que ele esteja vendo no relatório gerencial interno aquilo que o release de resultados ainda vai maquiar para o próximo earnings call. Cabe a quem está de fora separar o ruído do sinal, e a única ferramenta honesta para isso é desconfiar primeiro e acreditar depois.
O mercado de capitais americano, que se vende ao mundo como o templo da transparência, ainda permite que executivos vendam quantidades materiais de ações de suas próprias empresas com obrigação apenas de comunicar depois do fato consumado, via formulário 4 da SEC. O cidadão comum descobre que o capitão pulou do barco quando o capitão já está com os pés enxutos no cais. É um sistema desenhado para favorecer quem está dentro, financiado pela poupança de quem está fora, e legitimado por uma indústria inteira de bancos de investimento que cobra pelos dois lados da operação. A bolsa não é cassino porque no cassino as regras são iguais para todos os jogadores.
Patterson-UTI é apenas o caso da semana. Amanhã será outro CEO, de outro setor, vendendo outro lote por outra razão oficialmente inocente. O padrão é o mesmo desde que existe mercado acionário organizado: quem produz a informação aproveita primeiro, quem consome a informação aproveita o que sobra. A solução não é mais regulação, porque mais regulação só engorda o departamento jurídico das empresas e cria barreira de entrada para concorrentes menores. A solução é o investidor parar de tratar ação como rifa de quermesse e começar a tratar como aquilo que ela é, fração de propriedade de um negócio real, com riscos reais, e gestores que respondem primeiro ao próprio bolso e só depois ao seu.
Quando o dono do restaurante para de comer no próprio salão, o cliente da mesa ao lado precisa pelo menos olhar o cardápio com mais atenção. Hendricks tirou três milhões da cozinha. O resto da clientela que decida se continua pedindo o prato do dia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.