Patricia Poppe, CEO da PG&E Corp, vendeu US$ 512.187 em ações da companhia que ela própria dirige, e o registro foi publicado com aquela naturalidade burocrática que esconde o óbvio. A executiva no topo da pirâmide, a que tem acesso a todos os relatórios internos, a que sabe o que vem pela frente em termos de litígios, regulação e tarifa, decidiu reduzir sua exposição. Olha, quando o capitão começa a esvaziar discretamente o próprio camarote, vale prestar atenção, mesmo que ele jure que o navio está firme.
Para quem não acompanha, a PG&E é a concessionária que opera o nordeste e o centro da Califórnia, aquela mesma que se tornou famosa por ter incendiado boa parte do estado nos últimos anos por negligência em manutenção de linhas, que pediu concordata em 2019, saiu reorganizada com a bênção dos reguladores e vem repassando ao consumidor californiano tarifas que estão entre as mais altas dos Estados Unidos. Quer dizer, o consumidor paga caro, paga sempre, paga em nome da transição energética, paga em nome da resiliência climática, paga em nome de qualquer slogan que a agência reguladora aprovar naquele trimestre. E no fim do funil, quem retira valor concretamente são os executivos que recebem em ações e vendem nos picos.
Aqui está o ponto que o noticiário financeiro nunca conecta. Quando você tem um monopólio territorial garantido por Estado, com tarifa fixada por uma comissão regulatória que historicamente foi capturada pela indústria que deveria fiscalizar, com base de ativos remunerada por fórmula que premia investimento bruto e não eficiência, você não tem uma empresa de mercado, tem um arranjo. E todo arranjo tem dois tipos de participantes, os que estão dentro do esquema e os que financiam o esquema. Os primeiros vendem ações em janelas planejadas, os segundos pagam a conta de luz no quinto dia útil sem perguntar.
O californiano médio hoje gasta com energia elétrica o dobro do que o texano médio gasta, e a diferença não está em fenômeno geográfico, está em desenho institucional. O Texas tem mercado atacadista competitivo com falhas, mas com competição. A Califórnia tem oligopólio regulado com captura, sem competição, com lobby permanente em Sacramento e contribuições de campanha pingando nos comissários certos. Adivinha qual modelo gera CEO vendendo meio milhão em ações sem que isso vire manchete e qual modelo gera tarifa baixa.
Diga-se de passagem, vendas de insiders nessa magnitude raramente significam pessimismo terminal, costumam ser planejadas via 10b5-1 para diluir riscos pessoais. O problema não é a venda em si, o problema é o sistema que permite que uma única pessoa acumule esse tipo de patrimônio em ações de uma empresa cujo modelo de negócio é tarifa cativa cobrada de quem não tem alternativa. Lucro privado é legítimo quando vem de servir o cliente melhor que o concorrente. Lucro privado obtido pela ausência forçada de concorrente é outra coisa, e essa outra coisa tem nome antigo, é privilégio.
O californiano que abre a fatura todo mês e xinga a PG&E está xingando o sintoma. A doença é o conluio entre regulador e regulado, entre legislador e lobista, entre executivo e comissão tarifária. Enquanto esse triângulo continuar fechado, vai continuar havendo CEO embolsando meio milhão num clique e família ajustando o termostato no inverno para não estourar o orçamento. E vão continuar te dizendo que é por causa do clima, da guerra na Ucrânia, dos incêndios, da inflação global, de qualquer coisa, menos da única coisa que importa, que é o desenho do jogo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.