A notícia chega com aquela cara de comunicado burocrático que ninguém deveria ler com atenção, e é exatamente esse o ponto. O CEO da Prudential Financial recebeu uma concessão de 419.318 ações da própria companhia, e a imprensa financeira reporta o fato com a mesma naturalidade com que se anuncia a previsão do tempo. Olha, quando um sujeito assina o cheque que ele mesmo vai descontar, existe uma palavra antiga para isso, e ela não é remuneração variável atrelada a indicadores de performance de longo prazo.
O arranjo é sempre o mesmo, e funciona porque quase ninguém olha por dentro. O conselho de administração, povoado em boa parte por gente indicada pelo próprio executivo ou por seus pares em outras companhias, aprova um pacote de ações sob o rótulo respeitável de alinhamento de interesses com o acionista. Como se o acionista comum, aquele que botou as economias da aposentadoria num fundo de pensão e nem sabe que tem ação da Prudential, tivesse sido consultado. O alinhamento existe, sim, mas é entre os de dentro. O resto paga a conta via diluição silenciosa.
Quer dizer, é instrutivo seguir o dinheiro nesse tipo de cerimônia. Cada ação nova emitida ou transferida ao executivo reduz, na margem, a participação dos demais acionistas. Não aparece no extrato de ninguém, não dói no bolso de modo visível, e por isso o esquema sobrevive década após década. É a velha mágica do que se vê e do que não se vê. Vê-se o discurso sobre meritocracia, sobre liderança, sobre criação de valor de longo prazo. Não se vê a transferência patrimonial que acontece enquanto se discursa.
E há aqui uma confusão deliberada que vale desfazer. Lucro genuíno, num mercado de verdade, é o sinal de que o empresário acertou na alocação de recursos escassos, serviu o consumidor melhor que o concorrente, suportou risco real com capital próprio. Não é o caso. Aqui temos um funcionário, ainda que graduado, que não arrisca patrimônio próprio, que negocia com gente que ele influencia, e que recebe ativos da firma como se fosse natural. O mercado de capitais moderno aprendeu a confundir essas duas coisas, e o resultado é uma casta executiva que vive de pacotes acionários enquanto prega disciplina fiscal para o resto do mundo.
Me diz uma coisa, o que aconteceria se um operário da fábrica resolvesse, por conta própria, levar para casa 419 mil unidades do produto que ajuda a fabricar? Seria roubo, processo criminal, manchete. Quando acontece no andar do conselho, com terno bem cortado e advogado bem pago, vira governança corporativa. A diferença não está no ato, está no vocabulário. E o vocabulário, como toda boa tirania moderna ensina, é o primeiro instrumento de legitimação do que não se sustenta sob luz direta.
O capitalismo de verdade, aquele que enriqueceu o mundo, exige risco assumido com capital próprio e disciplina imposta pela competição. O que se vê em concessões como essa é outra coisa, é o capitalismo de compadrio refinado, aquele em que o executivo, o conselho e os consultores de remuneração jogam o mesmo jogo, na mesma mesa, com cartas marcadas pelos próprios participantes. Chamar isso de mérito é um insulto ao mérito. Chamar de mercado é um insulto ao mercado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.