Michael O'Leary, o irlandês que há décadas sobrevive vendendo passagem barata em cima do continente mais regulado do planeta, veio a público dizer que o risco de escassez de querosene de aviação na Europa está diminuindo. Ótimo. Mas repare na coreografia: a notícia chega embrulhada como se fosse uma bênção do mercado autorregulado, quando na verdade é apenas o relato de um paciente que começa a respirar depois que tiraram o travesseiro de cima do rosto dele. Ninguém na imprensa europeia parece interessado em perguntar quem segurava o travesseiro.
A escassez não nasceu de uma seca de petróleo, de uma erupção vulcânica ou de um asteroide caindo sobre as refinarias do Mar do Norte. Ela é filha legítima de uma sequência de decisões políticas que combinaram sanções mal calibradas contra a Rússia, mandatos verdes que forçaram refinarias a converter linhas inteiras para combustível sustentável de aviação a custos siderais, e uma onda regulatória que tornou economicamente irracional manter capacidade de refino em solo europeu. O continente fechou refinaria, importou dependência, encareceu o que podia produzir e depois ficou surpreso quando o avião começou a pedir socorro no balcão.
Aqui aparece o velho truque do mágico de palco. O sujeito empurra o cidadão na piscina, joga uma boia no momento certo, e depois quer ser aplaudido como salva-vidas. A Comissão Europeia passou cinco anos legislando contra hidrocarboneto, anunciando metas de descarbonização que nenhuma engenharia consegue cumprir no prazo, e agora que o preço cedeu um pouco por razões alheias à competência burocrática, sobra discurso de vitória. Quem voa pagou caro, quem dirige paga caro, quem aquece a casa no inverno paga caro, e a conta do experimento ideológico continua sendo paga pelo passageiro econômico do voo das seis da manhã.
Há uma lição antiga, que qualquer comerciante de feira sabe sem nunca ter aberto livro: preço artificialmente baixo gera fila, preço artificialmente alto gera contrabando, e oferta artificialmente reprimida gera dependência. A Europa fez as três coisas ao mesmo tempo no setor de combustível. Quando O'Leary fala em alívio, ele está descrevendo o efeito colateral de fatores que ninguém em Bruxelas controla, novas rotas de importação, recomposição de estoques globais, recuo de tensão geopolítica em pontos específicos, e talvez um inverno menos cruel que o esperado. Nada disso é mérito de comissário, é resultado de gente real fazendo negócio real apesar do comissário.
O que se vê é a manchete sorridente do alívio. O que não se vê é a competitividade da aviação europeia já transferida para companhias do Golfo, da Turquia e da Ásia, é a refinaria que fechou e não volta, é o engenheiro de processos que migrou para Houston, é a tarifa do bilhete que não voltará ao patamar de cinco anos atrás mesmo com o querosene cedendo, porque a estrutura de custos foi reescrita por decreto. O alívio é tópico, a anestesia é cara, e o paciente continua na mesa.
Quando alguém te disser que a crise de combustível europeia está passando, lembre que ela só existiu porque um andar inteiro de burocratas decidiu que entendia de cadeia logística mais do que cem anos de mercado de energia. O risco diminuiu, mas o sistema que produz risco continua intacto, sentado em gabinete climatizado, redigindo o próximo pacote regulatório que vai gerar a próxima escassez que virá embrulhada como próxima boa notícia. Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.