Oitocentos e setenta e seis dólares. Esse é o tamanho da aposta que o presidente executivo da Sky Harbour Group fez na própria empresa, e o mercado financeiro brasileiro, sempre ávido por sinais vindos do norte, transformou o gesto em pauta. Quer dizer, o homem que comanda uma companhia avaliada em centenas de milhões investiu nela o equivalente a uma diária de hotel três estrelas. E nós, leitores diligentes, somos convidados a interpretar isso como demonstração de confiança, alinhamento de interesses, fé no futuro do negócio. Olha, se isso é fé, é a fé de quem coloca uma moeda no cofrinho da igreja para garantir o céu.

O ritual do insider buying é um dos teatros mais sofisticados do capitalismo financeiro moderno. Funciona assim: o executivo, que já recebe pacotes de remuneração com salário-base, bônus, stock options outorgadas com desconto, restricted stock units e benefícios diversos que somam milhões anuais, faz uma compra simbólica no mercado aberto. A compra é registrada, divulgada, virá manchete em portais especializados, e o pequeno investidor lá no Brasil lê aquilo e pensa: se o CEO está comprando, o negócio deve ser bom. É o velho truque do garçom que prova o vinho antes de servir, só que o garçom já bebeu três garrafas grátis na adega.

O que se vê é o gesto. O que não se vê é a estrutura inteira de incentivos que torna esse gesto financeiramente irrelevante para quem o pratica. Um executivo que recebe milhões em ações vestidas ao longo de anos pode comprar oitocentos dólares no mercado aberto sem sentir cócegas no bolso, ao mesmo tempo em que está vendendo, via planos pré-programados de venda automática, quantias muito maiores quase silenciosamente. A regulação americana exige divulgação de ambas as operações, mas a manchete vai para a compra, nunca para a venda. Siga o dinheiro, e você descobrirá que o teatro do alinhamento tem patrocinador fixo, e ele não é o acionista minoritário.

Existe um problema mais profundo aqui, e ele tem a ver com a cultura corporativa contemporânea. O capitalismo de verdade, aquele dos fundadores que apostavam o patrimônio da família no próprio negócio, foi substituído pelo capitalismo gerencial, onde executivos profissionais administram capital alheio recebendo participação acionária como bônus, não como aposta. A diferença é abissal. Quem arrisca o próprio dinheiro pensa duas vezes antes de cada decisão. Quem arrisca dinheiro dos outros e ainda recebe upside garantido pensa em narrativa, em apresentação trimestral, em sinalização ao mercado. A compra de oitocentos e setenta e seis dólares é exatamente isso: sinalização. Não é skin in the game, é maquiagem in the game.

Vale lembrar que a Sky Harbour atua no nicho de hangares para aviação executiva privada, ou seja, garagens premium para os jatos dos endinheirados. É um modelo de negócio absolutamente legítimo, voltado a um mercado real, com demanda crescente entre os ultrarricos que descobriram que viajar com plebeus em terminais comerciais é cansativo. Não há nada de errado em construir hangares de luxo. O que há de errado é a indústria de relações com investidores transformar movimentações simbólicas em fatos relevantes, alimentando a ilusão de que existe transparência onde existe apenas coreografia. O pequeno investidor merece informação útil, não pirotecnia disfarçada de governança.

Me diz uma coisa: se você, leitor, fosse o dono majoritário de uma empresa e quisesse demonstrar confiança no negócio, gastaria oitocentos e setenta e seis dólares ou colocaria um percentual significativo do seu patrimônio pessoal? A resposta evidencia tudo. O verdadeiro alinhamento de interesses não se mede em comunicados protocolares à comissão de valores mobiliários americana, mede-se na coragem de quem coloca o pescoço onde colocou a boca. Enquanto isso, a indústria continua publicando manchetes que enchem os olhos dos crédulos e os bolsos dos consultores de imagem corporativa. O mercado livre funciona quando há informação verdadeira circulando. Quando vira ritual de aparências, vira religião, e religião sem fé é apenas burocracia de domingo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.