Oscar González Rocha morreu em 7 de abril, aos 80 anos, e levou consigo mais de um quarto de século de história da Southern Copper, empresa que, sob seu comando, se tornou a maior produtora de cobre do Peru e peça central de um dos maiores grupos mineiros do planeta. Era engenheiro civil de formação, daqueles que passaram a vida inteira movendo terra e extraindo valor real da realidade, não do orçamento alheio. Não construiu carreira em ministério nem dependeu de decreto para existir. Foi ao chão, literalmente, e retirou de lá o metal que o mundo inteiro agora quer desesperadamente.
O cobre virou febre. A transição energética que os governos empurram com subsídios e decretos exige quantidades industriais do metal: cada carro elétrico consome quatro vezes mais cobre que um a combustão, cada turbina eólica devora toneladas, cada quilômetro de rede modernizada tem o metal no centro. O paradoxo é quase cômico. Os mesmos estados que perseguem mineradoras com royalties punitivos, obrigações de consulta prévia, impostos progressivos sobre lucros extraordinários e discursos intermináveis sobre soberania dos recursos naturais são os mesmos que dependem de empresas como a Southern Copper para viabilizar a utopia verde que prometem ao eleitorado. González Rocha navegou esse labirinto por décadas sem perder o rumo.
O Peru não é território fácil para quem produz riqueza. A história do país andino com a mineração é uma novela de amor e ódio cuja trama nunca muda: o governo percebe que precisa da receita que só a mineração gera, tenta apertar o torniquete fiscal, provoca resistência, recua pela metade, finge que regulou e repete o ciclo. Em cada troca de governo, um novo pacto social com as comunidades locais, uma nova alíquota de royalty, um novo ministro com um novo discurso sobre soberania. González Rocha sobreviveu a tudo isso porque entendia uma verdade que burocratas nunca aprendem: quem efetivamente produz tem um poder de barganha que não depende de lei, depende de realidade. Sem cobre, o plano não anda.
A Southern Copper respondeu por quase 15% de toda a produção nacional de cobre do Peru em 2025. Não é estatística abstrata. É equivalente a dizer que uma única empresa, gerida por um único homem por mais de duas décadas, sustentou quase um sexto de toda a capacidade exportadora do mineral mais estratégico do país. O Grupo México, do qual a empresa faz parte, figura como o terceiro maior produtor de cobre do mundo. Este não é o tipo de legado que se constrói com consultoria de imagem ou apoio de banco de fomento estatal. Constrói-se quilômetro por quilômetro de mina aberta, decisão por decisão de investimento, gerindo a tensão permanente entre o que o mercado pede e o que o Estado atrapalha.
O conselho da empresa enfrenta agora a única situação que toda empresa privada bem gerida, ao contrário de qualquer burocracia estatal, tem a capacidade de resolver com eficiência: a substituição de um líder. Não há eleição, não há populismo, não há promessa de campanha. Há um grupo de pessoas com responsabilidade fiduciária, com participação acionária real, com interesse concreto no resultado, e com a obrigação de escolher bem. O mercado vai precificar a escolha com mais precisão do que qualquer análise de consultoria. É nessa hora que se vê a diferença entre uma instituição que presta contas ao dono e uma que presta contas ao eleitor: a primeira geralmente funciona, a segunda geralmente promete.
González Rocha não é herói de estátua pública. É herói de balanço patrimonial, de produção por trabalhador, de empregos que existem porque alguém teve coragem de investir onde o Estado não investiria jamais. O mundo vai continuar precisando de cobre, os governos vão continuar fingindo que o produzem, e alguém vai ter que continuar sendo aquele que vai ao chão buscar o que sustenta o espetáculo todo. O nome de quem virá a seguir ainda não foi anunciado. Mas o trabalho, esse, não muda.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.