Setenta e quatro mil dólares. É o quanto o CEO da Surf Air Mobility resolveu tirar do próprio bolso corporativo na semana passada, despejando ações da empresa que ele mesmo comanda. Pouco dinheiro? Para o homem que assina o cheque, talvez. Para o sinal que se manda ao mercado, é uma sirene. Quando quem está dentro da sala vende, é porque viu algo que o relatório trimestral ainda não contou. E o relatório trimestral, convém lembrar, é redigido pelo mesmo sujeito que está vendendo.

Existe uma assimetria de informação que toda regulação do planeta finge combater e nenhuma jamais corrigiu. O insider sabe o calendário das más notícias antes do calendário existir. Sabe quando o contrato com a Boeing vai azedar, quando o regulador da aviação vai apertar o cerco, quando o próximo trimestre virá com prejuízo maquiado de "investimento estratégico". O varejista, esse herói anônimo que financia os sonhos alheios com a poupança da aposentadoria, fica sabendo pelo Yahoo Finance, três semanas depois, com gráfico vermelho.

E note a beleza do arranjo. A SEC obriga a divulgação dessas vendas, claro. Transparência, dizem. Só que a transparência chega no formato Form 4, em PDF, num site que ninguém lê, com prazo de até dois dias úteis. Tempo suficiente para o CEO embolsar o lucro e tempo suficiente para o investidor de boa-fé comprar a ação no topo. A regulação não corrige a assimetria, ela apenas a legaliza com carimbo oficial. É o tipo de proteção que protege quem? Adivinhe.

O setor de mobilidade aérea regional, aliás, é o paraíso das narrativas. Desde que alguém colou a palavra "elétrica" ou "sustentável" no avião, o capital subsidiado pelo contribuinte americano jorra como se não houvesse amanhã. E não há. Empresas que queimam caixa por anos prometendo revolucionar o transporte regional vivem desse oxigênio fiscal travestido de inovação. O CEO, naturalmente, sabe quanto desse oxigênio resta no tanque. Por isso vende.

Há um ditado antigo no mercado, que ninguém ensina em MBA porque destruiria o modelo de negócio do MBA. Insider compra por uma razão só, acredita que a ação vai subir. Insider vende por mil razões, divórcio, casa nova, diversificação, e por aí vai. É verdade no manual. É mentira na prática. Quando o sujeito que tem acesso ao livro-razão decide trocar papel por dinheiro vivo, ele está dizendo, na linguagem mais sincera que existe, a do bolso, que prefere o dólar líquido à promessa corporativa que ele mesmo vende em apresentações para fundos.

O pequeno investidor brasileiro que compra ADR de empresa americana achando que está protegido pela maturidade do mercado lá fora deveria meditar sobre isso. O capitalismo de compadrio não tem fronteira, e o jogo dos insiders é o esporte mais antigo de Wall Street. A diferença é que aqui se chama JBS e lá se chama Surf Air. Lá tem ETF para vender o pacote, aqui tem fundo de pensão estatal para socializar o prejuízo. O nome muda, o método não.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.