Dez mil setecentos e trinta e três dólares. Esse é o valor da venda de ações que o executivo-chefe da Trupanion, empresa americana de planos de saúde para animais de estimação, executou e que mereceu, vejam só, uma nota em portal de notícias financeiras. Para se ter ideia da grandeza do evento, é menos do que um apartamento de quarto e sala custa em qualquer cidade média brasileira. É o tipo de movimentação que, em qualquer mesa de operações séria, sequer aparece no radar. Mas o jornalismo financeiro contemporâneo, viciado em produzir conteúdo a cada respiração corporativa, transforma a venda de meia dúzia de papéis em sinal apocalíptico.
Olha, existe uma lógica perversa em transformar cada movimento de insider em manchete. O sujeito que escreve a nota não está te informando, está te preparando para reagir. O leitor médio, que mal sabe diferenciar ação de debênture, lê "CEO vendeu" e já interpreta como sinal de fuga, de problema, de que algo está podre no reino da Trupanion. Pode até estar, mas certamente não se descobre isso com dez mil dólares de venda. Descobre-se lendo balanço, fluxo de caixa, índice de sinistralidade dos planos pet, comportamento da carteira de clientes. Tudo trabalho duro, tudo invisível, tudo que ninguém quer fazer.
Me diz uma coisa, por que então a nota existe? Porque conteúdo barato gera clique, clique gera anúncio, anúncio gera receita. O portal não está prestando serviço ao investidor, está alimentando o algoritmo. Quanto mais "notícias" produzir por dia, mais o Google entende que aquela página é ativa e relevante. Você, leitor, é o produto. Sua atenção é a moeda. E a moeda da sua atenção está sendo gasta com uma transação que, no agregado da economia americana, tem o peso de um espirro num vendaval.
Enquanto isso, as coisas que de fato movem o tabuleiro, decisões de banco central, déficits fiscais que explodem em silêncio, regulações setoriais que sufocam pequenas empresas para proteger oligopólios estabelecidos, dívida pública que cresce mais rápido que qualquer setor produtivo, essas passam despercebidas. A imprensa especializada virou peneira invertida, deixa passar o caminhão e fica catando grão de areia. Não é incompetência, é incentivo. Reportagem investigativa séria custa caro, dá processo, irrita anunciante. Nota sobre insider trading de meia tigela custa quinze minutos de redação e ninguém se importa.
Há ainda o aspecto cultural mais profundo. Vivemos numa época em que a quantidade de informação produzida é inversamente proporcional à qualidade da reflexão que se faz com ela. O cidadão é bombardeado o dia inteiro por notas que parecem importantes, que têm cara de relevância, que vêm com selo de portal sério, mas que somadas não constroem entendimento nenhum. Você termina o dia exausto, sentindo que está por dentro de tudo, e na prática não entendeu nada do que aconteceu de relevante na economia mundial. O ruído derrotou o sinal.
A lição da venda de dez mil dólares em ações da Trupanion não está na venda em si, está no fato de você ter sido convidado a se importar com ela. Quando alguém te oferece informação irrelevante embrulhada como urgente, pergunte-se sempre o que está sendo escondido enquanto sua atenção é gasta no irrelevante. O mágico mostra a mão direita justamente para que você não veja o que a esquerda está fazendo. E na economia financeira moderna, com bancos centrais imprimindo trilhões e governos sangrando os contribuintes em silêncio, a mão esquerda nunca para de trabalhar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.