Enviados de Trump desembarcam em Islamabad na segunda-feira à noite, vinte e quatro horas antes de expirar um cessar-fogo de duas semanas, e enquanto a diplomacia posa para as câmeras a Marinha americana apreende um navio iraniano em alto-mar. O gesto é eloquente. Ninguém negocia paz com uma mão enquanto confisca carga alheia com a outra, a menos que o objetivo real nunca tenha sido paz, mas encenação de paz. Há uma diferença abissal entre as duas coisas, e ela costuma ser escrita com sangue nos livros de história que os analistas de telejornal nunca leram.
Olha, toda vez que uma potência ocidental anuncia uma trégua no Oriente Médio, convém perguntar quem ganha com a trégua e quem ganha com o rompimento dela. O complexo industrial militar americano não fatura bilhões vendendo flores. Fatura vendendo mísseis, drones, sistemas antiaéreos, munição guiada e contratos de manutenção que duram décadas. Um cessar-fogo prolongado é mau negócio. Um cessar-fogo que desmorona de forma dramática, com provocação visível e resposta previsível, é o cenário perfeito para justificar o próximo pacote de ajuda militar que o Congresso aprovará sem ler, como sempre aprovou.
A apreensão do navio não é acidente de percurso nem zelo alfandegário. É mensagem. E mensagens desse tipo têm destinatário duplo: o governo iraniano, que precisa responder para não perder a face interna, e o contribuinte americano, que precisa ser lembrado de que o inimigo ainda existe e justifica o orçamento do Pentágono. A engenharia é velha, funciona desde a Guerra Fria, e só falha quando alguém se dá ao trabalho de decompor o teatro em seus atores reais.
Quer dizer, a ironia é que o mesmo governo que imprime trilhões para financiar aventuras geopolíticas reclama quando o dólar perde poder de compra no supermercado do Kansas. A conta da política externa imperial não cai do céu. Sai do bolso de quem trabalha, via inflação disfarçada de patriotismo. Cada porta-aviões patrulhando o Golfo Pérsico é poupança corroída em Omaha, é hipoteca mais cara em Phoenix, é aposentadoria derretendo em Cincinnati. O americano médio paga a conta do império e ainda agradece porque a televisão lhe disse que aquilo é segurança nacional.
Me diz uma coisa, há algo mais revelador do que uma trégua que precisa de enviado presidencial correndo para Islamabad na véspera do vencimento? Se o acordo fosse sólido, ninguém precisaria viajar às pressas. O acordo é frágil porque foi construído sobre interesses que não coincidem, imposto por uma das partes e tolerado pela outra enquanto convinha. Paz imposta dura o tempo que a imposição é conveniente. Depois disso, vira combustível para a próxima escalada, que sempre chega mais cara, mais letal e mais lucrativa para quem fabrica armas.
No fim, o que se vê é o comunicado oficial sobre diplomacia e responsabilidade internacional. O que não se vê é o cálculo frio de quem aposta na ruptura, de quem lucra com a tensão, de quem converte instabilidade em contratos bilionários e cidadãos comuns em financiadores involuntários de guerras alheias. A paz verdadeira não precisa de porta-aviões para ser mantida. A paz que precisa é outra coisa com o mesmo nome, e quem confunde as duas está pagando caro sem saber.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.