Robyn Bradbury, diretora financeira da Core & Main, vendeu cinco mil ações da própria companhia e levou para casa cerca de duzentos e sessenta e dois mil dólares. O comunicado sai naquele tom burocrático de rotina, registrado em formulário padrão, como se fosse o equivalente corporativo de tirar o lixo na terça-feira. Mas me diz uma coisa, se a pessoa que conhece cada linha do balanço, cada provisão escondida, cada contrato de fornecimento, cada risco que ainda não virou nota de rodapé, decide converter papel em dinheiro vivo, o que exatamente isso sinaliza para o acionista de varejo que comprou a tese no relatório da corretora?

Existe uma assimetria de informação que nenhuma regulamentação da SEC, por mais sofisticada que seja, consegue apagar. O CFO sabe. O analista de banco chuta. O investidor pessoa física reza. E toda a engenharia regulatória construída para igualar essa disparidade produz apenas o efeito colateral de legitimar a desigualdade, porque agora a venda está devidamente registrada, devidamente comunicada, devidamente carimbada, e portanto devidamente irrepreensível. Olha, o mecanismo é elegante, a venda foi avisada com antecedência via plano de negociação programada, e mesmo assim o sujeito que entrou comprado no IPO continua olhando para o gráfico sem saber se está na fila do abate ou no banquete.

Core & Main distribui tubos, válvulas e hidrantes para obras de infraestrutura hídrica nos Estados Unidos, setor que vive de contrato público, emenda orçamentária e programa de estímulo federal. Quer dizer, a empresa respira no ritmo dos gastos do Tesouro americano, que por sua vez respira no ritmo da impressora do Federal Reserve. Quando o dinheiro novo é jogado no sistema via pacote de infraestrutura, ativos como esse inflam primeiro, beneficiam quem está posicionado antes, e só depois a inflação chega na bomba de gasolina do trabalhador. O CFO que vende no topo do ciclo de estímulo não está sendo desonesto; está sendo racional dentro de um jogo cujas regras foram escritas por quem opera a impressora.

Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. O contribuinte paga imposto, o imposto financia a obra, a obra compra o tubo, o tubo engorda a receita da empresa, a receita engorda a ação, a ação é vendida pelo executivo, o executivo embolsa o lucro, e o contribuinte continua pagando imposto para alimentar o próximo ciclo. Isso não é capitalismo de mercado, é capitalismo de balcão, aquele arranjo incestuoso em que o setor privado vira extensão contábil do orçamento público e chama isso de livre iniciativa. A mão invisível aqui tem CNPJ, lobby em Washington e acesso privilegiado ao subsecretário de obras.

O que ninguém vê no noticiário é o lado obscuro da janela quebrada aplicada ao mercado de capitais. Enquanto o jornal celebra a venda como prova de que o executivo confia no sistema financeiro, porque afinal ele cumpriu a regra, o que ficou oculto é o capital que deixou de ser alocado em pequenas empresas sem acesso a emenda parlamentar, a poupança do aposentado corroída pela inflação que financiou a festa, e o empreendedor de verdade que concorre com uma gigante subsidiada sem nunca ter tido a chance de competir em pé de igualdade. A venda de cinco mil ações é o reflexo minúsculo de um arranjo gigantesco, e fingir que é fato isolado é fazer o papel de otário voluntário.

No fim das contas, sempre que um executivo de empresa dependente de gasto público aperta o botão de vender, o mercado deveria tratar aquilo como sinal de fumaça, não como item de agenda. Papel vira dinheiro quando quem sabe sente cheiro de queimado, e o sujeito comum só descobre quando o cheiro já virou incêndio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.