Setenta e seis mil e quinhentos dólares. É essa a cifra que o diretor financeiro da Privia Health, empresa de saúde listada na bolsa americana, achou por bem retirar do próprio bolso corporativo vendendo ações da companhia que ele mesmo administra. Pequeno em valor absoluto, gigantesco em significado simbólico. Porque o sujeito que assina o balanço, que conhece o caixa de cor, que sabe a diferença entre o EBITDA reportado e o caixa real, decidiu que aquele papel valia mais transformado em dólar líquido do que guardado na carteira. E o investidor de varejo, lendo o release otimista do trimestre, continua comprando o que o executivo está vendendo.

Olha, isso tem nome e tem história. Chama-se assimetria de informação, e é tão antiga quanto o primeiro mercador fenício que sabia da tempestade antes do comprador da carga. A diferença é que hoje existe formulário, existe disclosure, existe a tal da transparência regulatória que, na prática, funciona como aviso após o fato. O insider vende na segunda, comunica na quarta, e na sexta o analista de banco escreve relatório dizendo que a venda foi por motivos pessoais, planejamento sucessório, diversificação de patrimônio, qualquer eufemismo que mantenha o rebanho calmo.

Quer dizer, a regra do jogo é simples e ninguém quer enxergar. Quando o CEO compra, é ruído. Quando o CFO vende, é sinal. O diretor financeiro é o cara que vê primeiro o que o mercado verá por último. Ele conhece a margem que está derretendo no segmento de cuidados primários, sabe quanto custou de verdade integrar a última aquisição, calcula no guardanapo o que o reembolso do Medicare vai fazer com o fluxo de caixa no próximo ano. Se ele está reduzindo posição, alguma coisa naquele balanço cheira pior do que o release sugere.

Me diz uma coisa: por que ninguém estranha que o setor de saúde americano, vendido há uma década como o eldorado defensivo das carteiras, esteja vendo executivo atrás de executivo aliviar posição? Privia, Oscar, Bright Health, a lista é longa e o padrão é o mesmo. O setor inteiro foi inflado pelos juros zerados da era pós-pandemia, pela enxurrada de capital barato que financiou plataformas de telessaúde sem modelo de receita, e agora que o custo do dinheiro voltou a existir, o rei está nu. Quem ajudou a vestir o rei está saindo pela porta dos fundos com o terno embaixo do braço.

E aqui mora a lição que o pequeno investidor brasileiro precisa engolir antes de mandar mais um boleto para a corretora comprar BDR de empresa americana de saúde da moda. A bolsa não é um cassino onde o azar distribui perdas aleatoriamente. É um campo de batalha informacional onde quem está dentro tem rifle de mira telescópica e quem está fora tem estilingue. Cada venda de insider devidamente reportada é um aviso colado no muro, em letra miúda, dizendo: eu, que sei mais do que você, estou tirando minha ficha da mesa. O parágrafo seguinte do release vai falar em crescimento sustentável, sinergias, posicionamento estratégico, e o investidor de varejo vai acreditar, porque acreditar é mais barato do que estudar.

O capitalismo de verdade não é esse teatro de comunicados maquiados e analistas que vivem de comissão sobre giro. O capitalismo de verdade é desconfiar, ler nas entrelinhas, seguir o dinheiro até a última gaveta, perguntar quem está do outro lado da operação que parece tão boa. Setenta e seis mil dólares é troco para um executivo dessa estatura. Mas troco também conta. E quando o homem que assina o balanço prefere o dinheiro à própria ação, o mercado inteiro deveria ouvir o estalo. Quase ninguém ouve. Por isso quase todo mundo perde.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.