O fato é prosaico na superfície e revelador no fundo. O diretor financeiro da Progyny, companhia americana do ramo de benefícios em fertilidade, descarregou duzentos e onze mil dólares em ações ordinárias da própria empresa. Operação registrada, declarada, dentro da lei. Tudo conforme manda o figurino regulatório. E é exatamente aí que mora a piada que ninguém ri.

Pergunte ao pequeno investidor que comprou Progyny no último trimestre acreditando nas projeções otimistas dos relatórios oficiais por que ele não recebeu o mesmo telegrama que o CFO recebeu. A resposta é simples e desconfortável: porque a informação que importa nunca circula pelos canais oficiais. Ela circula pelas reuniões fechadas, pelos almoços corporativos, pelos números brutos que só o alto escalão enxerga antes de virarem release maquiado pelo departamento de relações com investidores. Quando um executivo vende, ele não está se desfazendo de papel qualquer. Está vendendo o que sabe.

A defesa padrão dessas operações é o famoso plano de venda programada, aquele mecanismo jurídico criado supostamente para evitar o uso de informação privilegiada. Belo arranjo de fachada. O executivo agenda hoje a venda que fará daqui a seis meses, e assim, dizem os manuais, está protegido de qualquer suspeita. Só que quem decide o calendário da venda é o mesmo sujeito que conhece o calendário interno da empresa. Quem fica com o lucro da operação é o mesmo que assina o balanço. E quem paga a conta, no fim, é o investidor que comprou o papel acreditando que o capitão não estava abandonando o navio em silêncio.

Há uma assimetria fundamental aqui que nenhuma regulação consegue corrigir, porque a própria regulação é desenhada por advogados pagos pelas empresas que ela deveria fiscalizar. O que se vê é a venda registrada, formal, transparente. O que não se vê é a montanha de informação que motivou aquela venda específica naquela data específica naquele preço específico. O mercado precifica o que está nos formulários públicos. O insider precifica o que está nas planilhas internas. Os dois jogam o mesmo jogo com baralhos diferentes, e o jogo é chamado de mercado livre num truque semântico que envergonharia um vigarista de feira.

O capitalismo de verdade, aquele que funciona, exige simetria de informação ou pelo menos punição severa quando ela é violada. O que existe na prática é um arranjo cartelizado entre executivos, fundos institucionais e órgãos reguladores capturados que transformaram o mercado de capitais num cassino onde a casa avisa ao gerente quando vai mudar o pagamento da roleta, enquanto o apostador comum continua acreditando que está jogando contra o acaso. Não está. Está jogando contra quem viu as cartas antes.

Duzentos e onze mil dólares é troco para os padrões de Wall Street. Mas a operação importa não pelo valor e sim pelo que ela representa: a normalização do privilégio informacional travestida de procedimento regulatório. Toda vez que um CFO vende em silêncio e o noticiário registra como nota de rodapé, o capitalismo perde um pouco mais da sua legitimidade moral, e o socialismo ganha mais um argumento que não merecia ganhar. Quem destrói o livre mercado não é o militante de esquerda. É o executivo que o usa como balcão privado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.