Vamos ao fato seco antes da interpretação. O diretor financeiro da Sunation Energy, empresa de energia solar listada nos Estados Unidos, comprou pessoalmente o equivalente a duzentos e dezoito mil dólares em ações da própria companhia. Em finanças isso se chama insider buying, e é o tipo de gesto que costuma ser lido nas mesas de operação como sinal verde. Afinal, ninguém entende o caixa, as obrigações, os contratos pendurados e os esqueletos contábeis melhor do que o sujeito que assina o relatório. Se ele compra, é porque acredita. É a tese do livro-texto. Acontece que o livro-texto raramente conta a história inteira.

Olha, o setor de energia solar americano não é um setor. É uma criatura subsidiada do berço ao caixão, criada e alimentada por créditos fiscais, mandatos federais, isenções estaduais e a generosidade infinita do contribuinte que nunca foi consultado. Cada painel instalado nos Estados Unidos hoje carrega embutido um pedaço do imposto de renda de algum sujeito em Ohio que nunca verá um quilowatt daquela energia. A Sunation, como dezenas de pares, vive e respira dentro desse ecossistema artificial. Tirar o subsídio é arrancar o respirador. E o subsídio, com a nova configuração política em Washington, está sob revisão permanente.

Então me diz uma coisa: quando o CFO de uma empresa cuja viabilidade depende de Brasília, quer dizer, de Washington, decide comprar duzentos mil dólares em ações justamente no momento em que o papel está derretido, o que ele está sinalizando? Pode ser convicção genuína de que o pior já passou. Pode ser também a velha técnica do gesto teatral para sustentar o preço, animar o pequeno investidor, dar fôlego para refinanciar uma dívida que vence no próximo trimestre. A diferença entre uma coisa e outra é exatamente a diferença entre lucro e prejuízo para quem comprar atrás dele acreditando no roteiro.

O que ninguém quer falar é que esse setor inteiro funciona como uma fazenda de extração de valor do contribuinte por meio do código tributário. A engenharia financeira da energia limpa nos Estados Unidos é, em grande parte, engenharia de captura de crédito fiscal. Você monta a estrutura, capta o subsídio, securitiza o fluxo, distribui o ganho entre patrocinadores e ainda aparece na capa da revista como herói do planeta. O painel solar é o produto secundário. O produto principal é o benefício fiscal. Quando o benefício fiscal é cortado, ou apenas ameaçado, descobre-se que o rei estava nu o tempo todo, e que o aplauso vinha de quem ganhava na sombra.

A compra do CFO precisa ser lida nesse contexto. Não é mentira que insider buying tende a ser sinal positivo nos dados históricos. É verdade que existe uma assimetria de informação favorável a quem está dentro. Mas em setores que dependem da bondade do orçamento federal, o insider sabe da empresa, não sabe do Congresso. Ele aposta com base no que enxerga do balanço, não com base no humor do próximo comitê que decidirá se prorroga ou não o benefício que sustenta a companhia. O risco regulatório, num mercado assim, é maior que o risco operacional, e o CFO não tem informação privilegiada sobre o risco regulatório. Ninguém tem.

A lição que sobra para o leitor atento é antiga e desconfortável. Mercado dependente de subsídio não é mercado, é apêndice do orçamento público disfarçado de empreendedorismo. Empresa cujo valor presente líquido é uma planilha de créditos tributários não é empresa, é veículo fiscal com fachada industrial. E quando o capitão de um navio desses compra passagem em primeira classe, sorri para a câmera e acena para o porto, vale lembrar que ele já está a bordo de qualquer jeito. Você é que ainda tem a opção de ficar em terra firme.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.