James Edgemond, CFO da United Therapeutics, vendeu US$ 5,48 milhões em ações da companhia que ele mesmo administra, e o release veio embrulhado naquela linguagem asséptica de sempre, "transação programada", "plano 10b5-1", "rotina de diversificação patrimonial". Quer dizer, o sujeito que tem acesso aos números antes de todo mundo, que conhece cada rachadura do balanço, cada provisão escondida, cada projeção que ainda não virou guidance, decidiu que o melhor uso para aquele papel era trocá-lo por dólares no caixa. E o mercado responde com bocejo profissional, como se não houvesse aqui nenhuma informação interessante.

Olha, existe uma assimetria de informação que nenhuma regulação da SEC jamais resolveu, por mais formulários que se exija preencher. O CFO sabe. O investidor de varejo, que comprou a ação porque leu uma matéria entusiasmada num portal de finanças, não sabe. E quando o que sabe vende para quem não sabe, a transação tem nome próprio em qualquer mesa de pôquer do mundo, e esse nome não é "diversificação patrimonial". É o famoso truque do cassino, a banca nunca aposta contra si mesma sem motivo.

Repare no detalhe que ninguém comenta. A indústria farmacêutica americana, da qual a United Therapeutics faz parte, vive há duas décadas no útero quente da regulação federal, com patentes estendidas por lobby, preços inflados por Medicare, e barreiras de entrada construídas no Congresso a peso de doação de campanha. É um setor onde o lucro não vem do mercado livre, vem do arranjo. E arranjo, todo mundo que já viveu o suficiente sabe, tem prazo de validade. Quem está sentado na primeira fila vê o ator começando a esquecer o texto antes da plateia perceber.

Existe uma velha lição que vale para qualquer negócio com capital aberto, e ela diz mais ou menos o seguinte, o executivo que compra ações da própria empresa pode estar otimista por mil razões diferentes, vaidade, sinalização, convicção genuína, mas o executivo que vende quantia relevante só tem uma razão real, ele acha que aquele dinheiro no bolso vale mais do que aquele papel na carteira. Pode estar errado, mas é a aposta dele, feita com a melhor informação disponível no planeta sobre aquela empresa específica. Ignorar isso é como ignorar o capitão saindo do navio antes da tempestade ser anunciada no rádio.

E há ainda o aspecto cômico de toda essa coreografia. O mesmo CEO ou CFO que aparece em entrevistas dizendo que a empresa está em "momento transformacional", que o pipeline é "robusto", que as perspectivas são "extraordinárias", é o mesmo que, por trás, executa uma venda de cinco milhões e meio. A boca diz uma coisa, a carteira faz outra, e o jornalismo de finanças, treinado para reproduzir release, não nota a contradição. A imprensa especializada virou departamento de comunicação terceirizado das companhias listadas, e o leitor que confia nela paga a conta no fim do trimestre.

A lição, para quem ainda tem ouvidos para escutar, é antiga e ingrata. Em mercado capturado por lobby, em setor protegido por barreira regulatória, em empresa cujo lucro depende mais de Washington do que de Wall Street, observe sempre o que os donos da casa estão fazendo, não o que estão dizendo. Palavras são baratas, comunicados são gratuitos, releases são commodities. Cinco milhões e meio saindo da posição do CFO, isso sim, custa, e por custar, fala.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.