Um CFO comprando ações da própria companhia com dinheiro vivo não é notícia de manchete, e talvez seja exatamente por isso que merece destaque. Estamos falando de Joyson Thomas, diretor financeiro da Whitehorse Finance, desembolsando US$ 19.860 para abocanhar papéis da empresa que assina os balanços. Pouco dinheiro para os padrões de Wall Street, claro, mas a quantia importa menos do que o sinal. Insiders compram por uma única razão, vendem por mil. Quem está com a mão no leme, vendo os números antes do resto do mundo, raramente joga o próprio salário num barco que acredita estar afundando.
O detalhe que os releases corporativos não destacam é a assimetria de informação envolvida. O CFO de uma business development company como a Whitehorse enxerga a qualidade do portfólio de crédito privado antes do investidor de varejo, antes do analista de banco e, em muitos casos, antes do próprio conselho. Quando esse sujeito decide alocar capital próprio, está fazendo uma aposta com informação que você, leitor, não tem. É a versão decente do insider trading, aquela permitida pela SEC justamente porque obriga divulgação imediata. O mercado deveria ler esses formulários 4 com a atenção que dispensa aos balanços, e não lê.
Há um ponto filosófico mais profundo aqui, e tem a ver com aquilo que diferencia capitalismo verdadeiro de capitalismo de papel. Quando o executivo coloca pele em jogo, está sinalizando que os incentivos dele se alinham aos do acionista minoritário. É o oposto exato do modelo dominante das grandes corporações americanas pós anos noventa, onde o CEO recebe pacotes milionários em opções, exerce na alta, vende no topo e pula fora antes do desastre. Aquele arranjo, abençoado por consultorias de remuneração e auditado por contadores criativos, transformou o executivo num parasita sofisticado do próprio negócio. A compra direta, em dinheiro, com risco real, é a antítese dessa pilantragem institucionalizada.
Vale lembrar o que é a Whitehorse Finance. Trata se de uma BDC, veículo que empresta para empresas médias americanas que não acessam o mercado de bonds tradicional. É crédito privado, o setor que cresceu monstruosamente desde 2008 justamente porque o Federal Reserve, ao manter juros artificialmente baixos por uma década, empurrou capital para qualquer canto que ainda oferecesse retorno acima da inflação maquiada. Agora, com a taxa básica em outro patamar e a inadimplência corporativa americana subindo silenciosamente, essas BDCs viraram termômetro precoce de estresse. O CFO comprar nesse contexto significa, ou que ele acredita que o pior já está precificado, ou que enxerga catalisadores que o mercado ignora. Ou, mais cinicamente, que precisa sinalizar confiança para uma plateia desconfiada. Cada uma dessas hipóteses merece ser pesada.
O ponto que ninguém quer dizer é que o sistema financeiro global vive de promessas, e promessas dependem da credibilidade de quem as faz. Quando o banco central imprime trilhões, quando o Tesouro emite dívida que jamais será paga em moeda de poder de compra equivalente, quando agências de rating dão grau de investimento a quem está tecnicamente quebrado, o único pedaço de sinceridade que sobra no mercado é o ato individual de um executivo botando dinheiro próprio numa empresa. Quase vinte mil dólares não vão mover o ponteiro de nada, mas mostram que o homem que assina o balanço acredita no balanço. Num mundo de fraudes auditadas e otimismos pagos, isso já é praticamente um milagre.
Resta a pergunta que sempre fica de pé. Se mais executivos fossem obrigados a manter participação relevante e ilíquida nas empresas que dirigem, quantas das catástrofes corporativas dos últimos vinte anos teriam acontecido? Quantos Enron, quantos Lehman, quantos SVB? O remédio para o capitalismo de compadrio nunca foi mais regulação, foi mais pele em jogo. Quem arrisca o próprio couro pensa duas vezes antes de assinar embaixo. Quem arrisca o couro alheio assina embaixo de qualquer coisa, e dorme tranquilo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.