O CFO interino da OAS Energy comprou US$ 9.926 em ações da CUEN. Repita o número devagar, porque ele importa. Não são dez milhões, não são dez bilhões, são nove mil novecentos e vinte e seis dólares, o preço de um carro usado num leilão de detran qualquer, e a imprensa financeira corre para empacotar isso como se fosse revelação dos céus. A figura do insider buying virou relíquia sagrada num templo onde o fiel não pergunta mais o que está rezando, apenas se ajoelha quando o sino toca.

Existe uma razão para essa coreografia, e ela não tem nada a ver com transparência. A SEC obrigou décadas atrás a divulgação dessas operações sob o argumento nobre de proteger o pequeno investidor, e o resultado prático foi criar uma indústria paralela de ruído travestido de informação. O executivo sabe que será observado, calibra a compra para sinalizar confiança sem comprometer o bolso, e o mercado, treinado como cachorro de Pavlov, saliva no preço. Quem ganha com isso? Não é o aposentado de Curitiba que comprou ETF achando que estava diversificando. É a corretora que cobra spread, é o algoritmo que arbitra o ruído, é o assessor que precisa de uma desculpa para ligar pro cliente.

Note o detalhe do cargo: interino. O homem não é CFO de fato, é CFO enquanto o conselho decide se mantém ou troca, e nesse limbo institucional ele assina uma compra que custa menos do que um jantar em Manhattan para sinalizar comprometimento. É a versão corporativa do candidato que beija criança em comício. O gesto importa mais que o conteúdo, e o gesto está calculado dentro do milímetro permitido pela regulação. Quem acredita que isso é mercado livre confunde teatro kabuki com tragédia grega.

O capitalismo de verdade, aquele que descobre o que tem valor através de milhões de decisões descentralizadas, não precisa de comunicado oficial para que o preço se ajuste. Ele se ajusta porque pessoas que conhecem o setor, que entendem a empresa, que estudaram o balanço, agem com seu próprio dinheiro e arriscam seu próprio pescoço. O que temos aqui é o oposto: um sistema onde a regulação criou a necessidade do sinal artificial, onde o preço responde ao formulário 4 e não à realidade do barril de petróleo, do contrato de longo prazo, da margem operacional que ninguém comenta porque dá trabalho ler.

E sempre que aparece um desses pequenos rituais, vale a pergunta antiga, a que o jornalista contemporâneo perdeu o hábito de fazer. Quem se beneficia da divulgação? A resposta nunca é o leitor. É a indústria de aconselhamento que precisa transformar poeira em ouro para justificar a taxa de administração, é o regulador que precisa mostrar serviço para garantir orçamento no ano que vem, é o próprio executivo que comprou o equivalente a três meses de mensalidade de escola particular e ganhou de presente uma manchete que vale mais do que qualquer bônus.

O verdadeiro escândalo não é a compra. É que tenhamos sido condicionados a achar que isso é notícia, enquanto as decisões que de fato movem bilhões acontecem em reuniões fechadas, em estruturas tributárias offshore, em lobbies que reescrevem regulações sob medida. Dez mil dólares de fumaça para esconder a fogueira. E a gente bate palma.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.