A CH4 Natural Solutions concluiu seu IPO na Bolsa de Nova York e captou duzentos e vinte milhões de dólares. Parabéns à empresa, sinceros e merecidos. Mas vamos parar de fingir que isso é uma boa notícia para o Brasil. É uma denúncia. É um atestado, carimbado e assinado, de que o ambiente de negócios brasileiro continua sendo o que sempre foi: um campo minado onde quem tem talento e ambição precisa fugir para crescer. A empresa não escolheu Wall Street por capricho ou vaidade cosmopolita. Escolheu porque aqui, na terra do Custo Brasil, captar capital virou esporte de sobreviventes.

Olha, me diz uma coisa. Quanto custa abrir capital na B3 hoje, entre taxas, advogados, auditores, consultores, registros e a fila de carimbos da CVM? Quanto tempo leva? E qual é a base de investidores que sobrou na bolsa local depois que a Selic foi para a estratosfera, transformando o Tesouro Direto em concorrente imbatível de qualquer ação? A resposta é constrangedora. O investidor brasileiro não compra ações porque o governo paga melhor para emprestar dinheiro a ele mesmo. É o famoso almoço pago duas vezes: o contribuinte paga o juro alto via imposto, e o pequeno investidor que poderia financiar empresas produtivas é seduzido pela renda fixa que aquele mesmo imposto sustenta. Ciranda perfeita, e o produtor que pague para ver.

Agora siga o dinheiro, que é onde a história sempre fica interessante. A CH4 trabalha com soluções naturais, presumivelmente ligadas à pauta de descarbonização e créditos de carbono, território onde o Brasil deveria ser potência absoluta dado o tamanho do nosso bioma. E o que acontece? O capital que vai financiar a operação dessa empresa brasileira sai do bolso de fundos americanos, europeus, asiáticos. O lucro futuro, os dividendos, a valorização da ação, tudo isso vai engordar carteiras estrangeiras. O brasileiro que poderia ter participado dessa história está comprando título público para o governo torrar em emenda parlamentar. Brilhante.

E quando o assunto é regulação ambiental, a coisa fica ainda mais saborosa. O mesmo país que produz uma empresa capaz de atrair duzentos milhões de dólares lá fora é o que mantém um cipoal regulatório capaz de matar dez startups antes que a primeira respire. Licenciamento ambiental que leva anos, agências que se contradizem entre si, secretarias estaduais que inventam exigências paralelas, e no topo da cadeia uma legislação que muda conforme o humor do ministro da vez. Quem aguenta esse tipo de loteria fica. Quem tem alternativa, vai. A CH4 teve alternativa. Foi.

O mais curioso é a reação previsível dos comentaristas oficiais, que tratarão o IPO como vitória do empreendedorismo brasileiro, como se o sucesso tivesse acontecido por causa do ambiente local e não apesar dele. É o velho truque retórico de privatizar os méritos e socializar os fracassos. Quando a empresa quebra aqui, a culpa é do mercado selvagem. Quando a empresa floresce lá, o crédito é do espírito empreendedor nacional que o governo nutriu com seus programas. Não é nada disso. É um talento brasileiro que sobreviveu ao governo brasileiro tempo suficiente para conseguir escapar dele.

O que se vê é um IPO bem-sucedido. O que não se vê são as dezenas, talvez centenas, de empresas que poderiam ter feito o mesmo aqui se houvesse um mercado de capitais funcional, uma carga tributária civilizada e uma estabilidade jurídica mínima. Não há. E enquanto não houver, as melhores ideias nascidas em solo brasileiro continuarão fazendo as malas. O Brasil exporta talento, capital humano e agora exporta o próprio direito de financiar suas empresas. Resta-nos importar a fatura.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.