A Cheetah Net Supply Chain Service, aquela importadora de carros de luxo da Carolina do Norte que ninguém da economia real conhece, acaba de concluir um grupamento de ações na proporção de uma para duzentas. Leu certo, duzentas. Cada acionista que tinha duzentos papéis, agora tem um. O preço unitário sobe artificialmente, o número de ações em circulação despenca, e a aritmética financeira finge que algo aconteceu. Não aconteceu nada. Multiplicou-se zero por duzentos e o resultado, surpresa, continua sendo zero.
O nome técnico disso é reverse stock split, e o motivo quase sempre é o mesmo: a ação caiu tanto que está prestes a ser deslistada da bolsa por descumprir o preço mínimo exigido. A Nasdaq tem regra clara, papel que negocia abaixo de um dólar por tempo prolongado vai para a rua. Então o que faz o conselho da empresa? Junta as ações no tapetão, infla o preço unitário no susto, e ganha tempo. É o equivalente corporativo de pintar a fachada da casa que está com o telhado caindo, na esperança de que o comprador não suba a escada.
Olha, o problema é que o mercado não é otário, ainda que finja ser. Estudos sérios sobre grupamentos reversos mostram, década após década, que a esmagadora maioria das empresas que recorrem a essa manobra continua perdendo valor depois dela. O grupamento não cura a doença, apenas adia o atestado de óbito. A causa do papel valer centavos não era o número de ações, era a falta de lucro, a falta de receita, a falta de modelo de negócio que sustente a tese. Empilhar zeros não vira um, e juntar pó não vira pedra.
Quer dizer, o caso Cheetah é especialmente saboroso porque revela a lógica perversa do mercado de capitais americano da última década, aquela enxurrada de IPOs e listagens via SPAC de empresas pequenas, sem histórico, sem escala, que entraram na bolsa empurradas por bancos de investimento famintos por taxas. Cada operação dessas gera comissão polpuda para o intermediário, escritório de advocacia, auditoria, consultoria de relações com investidores. Todo mundo na cadeia ganha, exceto o último elo, que é o investidor pessoa física que comprou a ação no topo achando que estava entrando no próximo unicórnio. Siga o dinheiro e você verá que ele já saiu há muito tempo, deixando o varejista segurando o mico.
Me diz uma coisa, em uma economia genuinamente livre, sem o teatro regulatório que cria a ilusão de proteção, empresas como essa simplesmente quebrariam, seus ativos seriam liquidados, os empreendedores aprenderiam, e o capital seria realocado para projetos com chance real. O que temos em vez disso é um arranjo onde a SEC inventa regras, as bolsas inventam exceções, as empresas inventam manobras para driblar as exceções, e o investidor médio é convencido de que tudo isso é sofisticação financeira. Sofisticação é o nome elegante da ofuscação.
O grupamento de uma para duzentas da Cheetah Net não é notícia econômica, é diagnóstico. Diagnóstico de uma empresa que provavelmente não deveria estar listada, de um sistema que premia a forma sobre a substância, e de uma cultura financeira que confunde ginástica contábil com geração de valor. A pergunta que o investidor sério deveria fazer não é qual será o próximo preço da ação depois do grupamento, é por que diabos esse papel ainda está negociando publicamente. Quando uma empresa precisa juntar duzentas ações para parecer uma, o mercado já disse o que precisava dizer, faltou apenas alguém com coragem de ouvir.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.