A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional disse esta semana que "todos os caminhos agora levam a preços mais altos e a um crescimento mais lento", em referência ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã que está redefinindo o equilíbrio energético global. Ela disse isso com a seriedade tecnocrática que Washington exporta tão bem quanto exporta inflação. E depois de fazer o diagnóstico, anunciou que o Fundo vai precisar de até 50 bilhões de dólares para "ajudar" os países afetados. Segure essa informação. Volte a ela daqui a dois parágrafos.
O que a guerra está fazendo, em números frios, é o seguinte: 13% do fluxo diário global de petróleo foi cortado. 20% do gás natural liquefeito deixou de circular pelos canais habituais. As cadeias de abastecimento que levaram décadas para ser construídas com base em margens milímétricas de eficiência estão absorvendo choques para os quais nunca foram projetadas. O Fundo já sinaliza que vai revisar para baixo suas projeções de crescimento global e que a inflação vai subir antes de cair. Traduzindo do idioma tecnocrático para o português de verdade: você vai pagar mais por tudo, por mais tempo do que qualquer comunicado oficial vai ter coragem de admitir.
Agora volte aos 50 bilhões de dólares. Esse dinheiro não brota de nenhuma árvore mágica. Vem de cotas de países-membros, ou seja, de contribuições nacionais, ou seja, de impostos, ou seja, da sua renda. O Fundo vai emprestar esse valor a países vulneráveis que, por sua vez, vão endividar suas economias com juros e condicionalidades. O histórico dessas operações é impecável, no sentido em que toda vez que termina, o país tomador está estruturalmente mais dependente, mais endividado e com uma classe média mais apertada. Quem ganhou? O Fundo cumpriu sua missão institucional. Quem perdeu? Pergunte ao argentino de 2001 ou ao grego de 2012.
Há um detalhe que merece atenção especial: a diretora-geral usou a expressão "cicatrizes permanentes" para descrever o impacto do conflito na economia mundial. Cicatriz pressupõe ferimento. Ferimento pressupõe agente. Ninguém, nos comunicados oficiais do Fundo, tem interesse em identificar com precisão cirúrgica quais decisões, quais alianças e quais interesses estratégicos produziram o conflito que agora deixa 45 milhões de pessoas diante da insegurança alimentar. Nomear causas é perigoso para quem frequenta os mesmos coquetéis que as causas. Então nomeia-se a cicatriz e distribui-se empréstimos.
O mecanismo aqui não é novo nem original. Uma crise energética comprime margens, encarece transporte, pressiona alimentos e obriga bancos centrais a escolher entre inflação e recessão, dois remédios piores que a doença. Em cada um desses estágios, o Estado amplia sua presença, o banco central aperta ou afrouxo crédito conforme a conveniência política do momento, e o cidadão, que não foi consultado sobre a guerra, sobre o conflito e muito menos sobre a política de "amortecimento" do Fundo, acorda um dia com salário real menor, poupança corroída e a certeza difusa de que alguém, em algum lugar, acha que isso foi bem gerenciado. A conta da guerra nunca é paga por quem a declara. É paga por quem nem sabia que estava no jogo.
Com informações do Valor Econômico e Reuters. A análise e opinião são do O Algoz.