O chefe do parlamento iraniano foi às câmeras para anunciar algo que ninguém discutia: que o Irã não se curvará. Quer dizer, ninguém havia dito que o Irã ia se curvar. A declaração serve para consumo interno, para a galeria doméstica que precisa ver o líder de peito aberto diante do Grande Satã, e também para sinalizar ao outro lado da mesa que a posição não mudou. É o tipo de pronunciamento que não diz nada e diz tudo ao mesmo tempo, porque o que ele realmente comunica é que as negociações seguem emperradas e que ninguém sabe como desempatar sem perder a face.

A tese iraniana, repetida com variações desde 1979, é que a pressão americana demonstra desespero. Pode ser. Washington acumula sanções sobre sanções, isola o sistema financeiro iraniano, restringe exportações de petróleo, e o regime continua de pé, enriquecendo urânio com desenvoltura e exportando influência para o Iêmen, o Líbano e o Iraque. Se isso é política externa eficaz, a definição de eficácia precisa ser revisada. Décadas de pressão máxima produziram exatamente o resultado oposto ao desejado: um Irã mais endurecido, mais nuclearizado e mais entrincheirado na narrativa da resistência. A sanção que pretendia mudar o comportamento do regime mudou apenas o comportamento do povo, que ficou mais pobre.

Olha, o mecanismo é sempre o mesmo quando dois Estados entram em conflito de longa duração: os governantes de ambos os lados se tornam dependentes do conflito para justificar sua existência. O governo americano precisa do Irã como ameaça para manter bases no Golfo, para vender armamentos aos aliados da região, para justificar orçamentos de inteligência que crescem independentemente de qualquer resultado. O regime iraniano precisa do América como vilão para explicar por que o rial vale uma fração do que valia, por que os hospitais faltam remédios e por que engenheiros e médicos continuam emigrando em massa. Retirado o inimigo externo, ambos os governos teriam que responder por seus próprios fracassos. Nenhum dos dois quer essa conversa.

Me diz uma coisa: quem exatamente perderia dinheiro se o impasse nuclear fosse resolvido amanhã? A lista é longa e inclui gente bem posicionada nos dois países. Do lado americano, há um complexo inteiro de contratantes de defesa, think tanks especializados em ameaça iraniana e lobbies de países vizinhos que têm interesse direto em manter Teerã como pária internacional. Do lado iraniano, os Guardiões da Revolução administram um império econômico paralelo que sobrevive precisamente porque as sanções eliminaram a concorrência externa e entregaram a eles o mercado cativo de um país de noventa milhões de pessoas. A paz, nesse contexto, seria um desastre financeiro para quem importa.

A retórica da soberania iraniana merece exame sério, não desprezo reflexivo. Um país tem o direito de não ser ameaçado por potências estrangeiras, e a história dos últimos dois séculos no Oriente Médio é uma longa série de intervenções externas que terminaram invariavelmente em catástrofe para os locais. Mas reconhecer o direito à soberania não obriga ninguém a fingir que o regime iraniano é um paladino da liberdade. É uma teocracia que enforça moralmente sua população, prende jornalistas e dissidentes, e usa o dinheiro público para financiar milícias do Mediterrâneo ao Mar Vermelho. A soberania que invoca para si mesma é exatamente a soberania que nega aos seus próprios cidadãos. O paradoxo é conveniente demais para ser acidental.

O que resta ao observador honesto é a percepção de que o "impasse" não é um problema a ser resolvido, mas uma condição a ser gerenciada por quem dele se beneficia. Washington vai continuar exigindo que Teerã reconquiste a confiança americana, e Teerã vai continuar exigindo que Washington reconquiste a confiança iraniana, e ambos os lados vão continuar cobrando essa conta do povo que não foi consultado sobre nenhum dos dois lados da equação. O parlamentar iraniano falou para as câmeras e soou firme. O State Department vai responder com firmeza equivalente. Os mercados de petróleo vão precificar a tensão. E em algum bazar de Teerã, alguém vai pagar mais caro pelo pão e não vai entender muito bem por quê.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.