O anúncio veio com a solenidade de costume. O alto comando da OTAN, em tom de quem entrega boletim escolar, garantiu que a aliança está no caminho certo para atingir as metas de gastos militares acordadas entre os países-membros. Note bem a escolha das palavras. Não disseram que a Europa está mais segura, que a ameaça russa foi contida ou que algum problema concreto foi resolvido. Disseram que vão gastar mais. E isso, na liturgia burocrática de Bruxelas, já é motivo de comemoração por si só.

Quer dizer, o sucesso da política deixou de ser medido pelo resultado e passou a ser medido pelo tamanho do cheque. É a velha mágica contábil dos governos. Você cria uma meta arbitrária, dois por cento do PIB, três por cento do PIB, o número que for, e depois transforma o cumprimento dessa meta numa espécie de virtude cívica. Ninguém pergunta se o dinheiro foi bem gasto, se os tanques funcionam, se os caças decolam, se os soldados estão treinados. Pergunta-se apenas se a verba foi torrada conforme o cronograma. E quando a verba é torrada, sobe ao palco o chefe militar de plantão para anunciar o feito ao mundo.

Siga o dinheiro e a fotografia fica mais clara. Cada ponto percentual a mais de PIB destinado à defesa significa contratos bilionários com Lockheed Martin, Raytheon, BAE Systems, Rheinmetall, Thales, Leonardo. Significa lobistas circulando pelos corredores da OTAN, pelos ministérios da Defesa europeus, pelo Pentágono. Significa generais que, depois de aposentados, vão sentar em conselhos consultivos dessas mesmas empresas, fechando o ciclo virtuoso entre o uniforme e o terno. Não é teoria conspiratória, é organograma. Está tudo lá, transparente como vidraça, e ninguém quer ver.

O que se vê é o gasto militar, o emprego no estaleiro, a fábrica de munição reaberta na Polônia, o caça novinho no hangar alemão. O que não se vê é o hospital que não foi construído, a estrada que não foi asfaltada, a empresa que não nasceu porque o capital foi sugado pela tributação, o salário do trabalhador belga que perdeu poder de compra para pagar a fatura de uma guerra que ele não pediu. Cada euro que vai para um míssil Patriot é um euro que sai do bolso de alguém que não tinha sobra nenhuma. Mas isso não cabe no comunicado oficial, que prefere falar em capacidade dissuasória, prontidão estratégica, compromisso transatlântico, e outras expressões que servem para esconder o óbvio: estão pegando o dinheiro do contribuinte e repassando, com luva de pelica, para um setor que sempre soube transformar medo coletivo em margem operacional.

O detalhe mais cômico é o tom triunfalista. Há vinte anos, a Europa era acusada pelos próprios americanos de pegar carona na defesa coletiva. Agora que finalmente abriram o cofre, o discurso é de que tudo está sob controle e o objetivo será cumprido. Cumprido o quê, exatamente? A meta de gastar, sim. A meta de produzir segurança real, ninguém ousa medir, porque medir é arriscado, e na contabilidade burocrática só se promete o que já está garantido por planilha. É a velha lógica do funcionário público que entrega o relatório de atividades dizendo que cumpriu cem por cento das reuniões agendadas, sem dizer se alguma reunião resolveu alguma coisa.

No fim, a história é tão antiga quanto o próprio Estado moderno. Quando um governo precisa justificar seu tamanho, inventa uma ameaça. Quando a ameaça é real, infla. Quando não é real, cria. E quando, por acaso, a ameaça some, ele simplesmente muda de nome e segue gastando, porque o aparato já está montado, os contratos já foram assinados, e ninguém desmonta a máquina que distribui dinheiro para os amigos. A OTAN está no caminho certo, diz o general. Certo para quem é a única pergunta que vale a pena fazer, e justamente essa ninguém faz.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.