Pequim anunciou nesta segunda-feira mais um daqueles pacotes de "aprimoramento regulatório" que, traduzidos do mandarim burocrático para o português dos vivos, significam o seguinte: nenhum yuan sai do país, nenhuma patente atravessa a fronteira, nenhum contrato de transferência de tecnologia é assinado sem que um comitê do partido tenha lido, carimbado e aprovado. O eufemismo oficial fala em "segurança nacional" e "ordenamento dos fluxos". Quem entende de história sabe o nome real disso, controle de capitais, e sabe também o que ele anuncia, sempre, em todo lugar e em qualquer época: o cofre está vazio, a confiança evaporou e o regime precisa cercar o gado antes que ele pule a cerca.
Olha, não existe governo que aperte a torneira da saída de capital porque está confiante na própria economia. Ninguém tranca a porta do galinheiro quando as galinhas querem entrar. Tranca-se quando elas estão fugindo. O empresário chinês que durante vinte anos foi celebrado como prova viva de que o "socialismo de mercado" tinha encontrado uma fórmula mágica acorda agora descobrindo que era inquilino do partido o tempo todo, e que o contrato de aluguel acabou de ser reescrito unilateralmente. A propriedade que parecia sua era concessão revogável, e a revogação chegou pelo Diário Oficial.
Quer dizer, siga o dinheiro e a história fica óbvia. O yuan está sob pressão, a fuga de capital pelos canais cinzentos bate recordes, o setor imobiliário virou cemitério de concreto armado e a aposta industrial em semicondutores, veículos elétricos e inteligência artificial precisa de cada centavo represado dentro das muralhas para sustentar a ficção de crescimento que Xi vende em congresso. Bloquear investimento no exterior não é estratégia ofensiva, é defesa desesperada. É o regime confessando, sem confessar, que se deixar o capital escolher livremente para onde ir, ele não escolhe Xangai.
E há a parte que os jornais de banco não vão sublinhar, a transferência de tecnologia agora também depende de licença. O Ocidente passou três décadas entregando know-how em troca de acesso a um mercado que nunca foi mercado, foi concessão política. Toda joint venture foi, na prática, um seminário pago de engenharia reversa. Agora que Pequim tem o que queria, fecha a saída e ainda exige que qualquer empresa chinesa peça permissão para licenciar para fora aquilo que copiou de dentro. É o golpe completo, recebe a tecnologia, absorve a tecnologia e proíbe a tecnologia de sair. Um manual de pilhagem geopolítica encadernado em couro vermelho.
O que ninguém quer enxergar, porque dá trabalho enxergar, é que isso era inevitável desde o primeiro dia. Não existe meio termo durável entre planejamento central e livre iniciativa. O regime que decide juros, alocação de crédito, metas setoriais e narrativa oficial acaba, mais cedo ou mais tarde, decidindo também para onde seu dinheiro pode ir e o que sua empresa pode vender. A lógica do controle é progressiva, cada intervenção exige a próxima para tapar o buraco que a anterior abriu, até que sobra apenas o controle. Os entusiastas ocidentais do "modelo chinês", aqueles colunistas que adoravam comparar trens-bala com burocracia tupiniquim, agora fingem demência. É o que sempre fizeram.
E o aviso para o Brasil é gratuito, ninguém precisa pagar consultoria para entender. Toda vez que aqui se fala em "soberania monetária", "controle estratégico de setores", "filtragem de investimento estrangeiro" ou qualquer outro nome bonito para a mesma coisa velha, o que se está propondo é o primeiro degrau da escada que termina exatamente nesse anúncio de Pequim. A liberdade econômica, quando perdida, não volta por decreto. Volta, quando volta, depois de muito sofrimento de gente que nem sabia que estava sendo roubada. O capital que não pode sair é capital que já não é seu, é refém. E refém, como ensina qualquer manual de sequestro, raramente sai vivo da história.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.