O encontro foi vendido como histórico, e talvez seja, mas não pelo motivo que os jornais da City repetem em coro. Quando o presidente americano declara que China e Estados Unidos "sentem-se muito parecidos" a respeito do Irã, e Xi Jinping responde celebrando uma "nova relação bilateral", o que se ouve nas entrelinhas é o som inconfundível de dois cartéis dividindo território. O Irã, vejam só, virou o ponto de convergência entre o falcão republicano e o secretário-geral comunista. Quem ainda acredita que existe uma guerra fria de princípios entre Washington e Pequim precisa atualizar o software ideológico.

Olha, a coisa é mais simples do que os analistas de gravata querem fazer parecer. Pequim compra petróleo iraniano com desconto, abastece sua máquina industrial e financia, na prática, o regime dos aiatolás. Washington, por sua vez, precisa do tabuleiro do Oriente Médio organizado para sustentar o dólar como moeda do petróleo e segurar Israel, que é o sócio minoritário com poder de veto na política externa americana. Se ambos "sentem o mesmo" sobre o Irã, é porque ambos descobriram que brigar custa caro e combinar custa menos. O cidadão comum, esse não senta na mesa, apenas paga a gorjeta da reunião pela bomba de gasolina.

Há uma ironia espessa nisso tudo. O mesmo presidente que fez carreira denunciando a China como inimiga industrial agora encontra "convergências" com o regime que mantém um milhão de uigures em campos de reeducação. E o mesmo regime que se vende como liderança do "sul global" antiimperialista aperta a mão do imperialista-mor para combinar sanções contra um terceiro país. Quer dizer, o teatro continua, só mudaram os figurinos. A geopolítica, no fundo, nunca foi sobre valores; sempre foi sobre quem controla os fluxos de capital, energia e tecnologia. O resto é narrativa para consumo doméstico.

Siga o dinheiro, e o quebra-cabeça se monta sozinho. Há dois anos a China comprou mais de noventa por cento do petróleo iraniano exportado, pagando em yuan ou em escambo industrial, drenando reservas em dólar do sistema iraniano e, de quebra, criando uma dependência que vale mais que mil tratados. Os Estados Unidos, enquanto isso, mantêm sanções formais que penalizam pequenas empresas europeias mas fingem não ver os superpetroleiros chineses descarregando em Xangai. A "convergência" anunciada agora apenas formaliza o arranjo que já existia debaixo da mesa. O cinismo é o cimento da diplomacia das grandes potências, sempre foi.

E os mercados, esses ratos espertos, já farejaram tudo. O petróleo se ajusta, o ouro se aquece, as bolsas asiáticas sorriem. Quem investiu em armamento perde uma rodada, quem investiu em infraestrutura energética chinesa ganha. Cada palavra dita numa cúpula desse porte é um sinal de preço para quem sabe ler, e quem não sabe ler vai descobrir no contracheque do mês que vem, quando a inflação importada bater à porta. Não existe almoço grátis na geopolítica, e o jantar dos imperadores é sempre pago pelos súditos dos dois lados do oceano.

Resta a pergunta incômoda que ninguém quer fazer. Se duas potências nucleares com sistemas políticos antagônicos conseguem "sentir o mesmo" sobre um terceiro país soberano, o que isso diz sobre a soberania de qualquer nação menor diante delas? Diz tudo, e diz a coisa mais antiga do mundo: os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem. A diferença é que, no século XXI, eles fazem isso de terno e com tradução simultânea.

Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.