Pequim mandou recado a Bruxelas dizendo que, se a União Europeia insistir em apertar restrições comerciais sobre produtos chineses, virá retaliação proporcional. Traduzindo do diplomatês para o português de gente: dois governos preparam-se para taxar mutuamente os próprios cidadãos enquanto fingem que estão punindo um ao outro. É o velho teatro do protecionismo, encenado com figurino novo e o mesmo final previsível, plateia empobrecida e atores aplaudindo a si mesmos.

Olha, qualquer estudante minimamente sério de história econômica sabe onde esse filme termina. Nos anos 30, o mundo decidiu que erguer muros tarifários ia proteger empregos nacionais, e o resultado foi um colapso do comércio internacional que aprofundou uma depressão que já era ruim por conta própria. O protecionismo nunca protegeu ninguém além de um punhado de empresários bem relacionados com o poder, capazes de pagar lobistas para transformar privilégio em política pública. O resto da população recebe a fatura disfarçada de preço mais alto, prateleira mais vazia e salário que compra menos.

Quer dizer, siga o dinheiro e a coreografia fica óbvia. Quem ganha quando a UE impõe sobretaxa sobre carro elétrico chinês? O fabricante europeu que não consegue competir em preço e qualidade, e que, em vez de melhorar, contrata advogado em Bruxelas para que o burocrata faça pelo lobby o que o engenheiro não conseguiu fazer pela inovação. Quem perde? O consumidor europeu, que pagaria menos por um produto melhor, e o trabalhador chinês, que veria sua produção escoar. No meio, vivendo da intermediação, está a casta política que justifica sua existência fingindo arbitrar uma briga que ela mesma fabricou.

Me diz uma coisa, desde quando burocrata em gabinete sabe o que o consumidor precisa? A pretensão de planejar fluxos comerciais globais como se fossem peças de xadrez é exatamente o tipo de arrogância que produz desastre repetido. Os preços, quando deixados em paz, carregam informação que nenhum comitê regulatório consegue replicar, eles dizem onde produzir, o que produzir, para quem produzir. Cada tarifa é uma mentira injetada nesse sistema de sinalização, e mentira em economia cobra juros compostos. A Europa que se acha sofisticada o suficiente para dirigir o comércio mundial é a mesma que não consegue resolver sua conta de energia, sua demografia e sua indústria sem subsídio.

E há um detalhe que ninguém em Bruxelas quer admitir em voz alta. A China não é o problema da Europa, a Europa é o problema da Europa. Décadas de regulação asfixiante, energia cara por ideologia verde, encargos trabalhistas que matam contratação e uma máquina pública gigante que consome capital produtivo deixaram o continente incapaz de competir em manufatura. Erguer muro tarifário não resolve nenhuma dessas causas, apenas adia o diagnóstico e empurra o custo para o cidadão que ainda não percebeu que está sendo saqueado em nome da sua própria proteção.

A retaliação chinesa vai vir, e será simétrica no método e desigual no efeito, porque toda guerra comercial fere mais quem é mais dependente do comércio. Vai sobrar para o fazendeiro francês que vendia vinho na Ásia, para o engenheiro alemão que fornecia componente, para o pequeno exportador italiano que ninguém vê nas manchetes. E quando a conta chegar, o mesmo burocrata que iniciou a briga vai aparecer na televisão pedindo mais poder e mais orçamento para mitigar a crise que ele próprio fabricou. É sempre assim, é sempre o mesmo roteiro, e ainda assim a plateia continua aplaudindo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.