Olha que coincidência reveladora. Pequim, que durante décadas tratou o Oriente Médio como se fosse uma novela alheia passando na televisão do vizinho, agora descobre, num átimo, que o cessar-fogo entre Israel e Irã precisa ser duradouro e que o Estreito de Ormuz precisa voltar a operar com fluidez. Quer dizer, a vocação humanitária floresceu exatamente no ponto geográfico por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo, e por onde a China, sozinha, sorve algo próximo de metade do que o Irã exporta. Quem acreditar que isto é diplomacia da paz, também acredita que subsídio agrícola existe para alimentar criança pobre.

O que está em jogo não é a vida do iraniano comum, nem a segurança do israelense, nem a estabilidade da região. O que está em jogo é a planilha de custos da indústria chinesa e o preço do diesel no porto de Xangai. Cada dia de Ormuz fechado é um aumento de prêmio de seguro marítimo, uma rota mais longa contornando o Cabo da Boa Esperança, um contrato de longo prazo renegociado a preço pior. A diplomacia chinesa está fazendo aquilo que toda diplomacia faz quando tira a maquiagem: defendendo o bolso de quem manda em casa. A diferença é que, em Pequim, quem manda em casa é o próprio Estado, então o bolso do Estado e o discurso do Estado falam a mesma língua sem precisar fingir que são entidades distintas.

Repare na engenharia do arranjo, porque ela é deliciosa. A China comprou petróleo iraniano abaixo do preço de mercado durante anos, aproveitando que o regime de Teerã estava sob sanções e precisava vender com desconto a quem aceitasse contornar o sistema financeiro ocidental. Construiu uma dependência mútua confortável: o Irã depende da venda, a China depende da compra barata. Quando os mísseis começam a voar e o estreito vira zona de risco, esse arranjo desmorona, e o desconto evapora. O pedido de cessar-fogo, portanto, não é súplica moral, é cobrança de fornecedor preocupado com a cadeia logística. É o equivalente geopolítico do empresário que liga para o despachante quando a estrada está bloqueada.

Há ainda a camada mais profunda, que ninguém na imprensa convencional ousa tocar. O Ocidente passou trinta anos terceirizando para a China sua capacidade industrial, sua dependência energética indireta e sua paz mental sobre o Oriente Médio, na crença bovina de que o comércio global produziria automaticamente harmonia entre nações. O resultado prático é que hoje uma escaramuça no Golfo Pérsico precisa do aval logístico de Pequim para terminar, porque sem o consumidor chinês a economia iraniana não fecha as contas e sem o petróleo iraniano a indústria chinesa engasga. Quando se entrega a chave da despensa ao vizinho, não se queixe depois de ter que pedir licença para cozinhar.

O detalhe que fecha o quadro é a postura dos governos ocidentais, incluindo o brasileiro, que aplaudem qualquer manifestação de Pequim como se fosse contribuição civilizatória, ignorando que o regime chinês é, ele próprio, uma das maiores máquinas de repressão interna e expansão geopolítica do século. Mas a paz convém quando o petróleo flui, e o silêncio sobre Hong Kong, Xinjiang ou Taiwan é o pequeno preço que se paga por um barril mais barato. A moral pública dos Estados modernos tem o curioso hábito de subir e descer conforme a curva de preços das commodities, e ninguém parece achar isso estranho.

O que se vende como diplomacia da paz é, no fundo, gestão de inventário travestida de virtude. Ormuz precisa abrir porque os tanques chineses precisam encher, e o resto, a vida humana, a soberania regional, o equilíbrio estratégico, são notas de rodapé na contabilidade de um império que aprendeu a moralizar seus interesses melhor do que qualquer democracia ocidental jamais conseguiu. A próxima vez que ouvir um governo defender a paz, pergunte primeiro o que ele está comprando, e por quanto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.