A notícia chegou embrulhada em linguagem técnica, como sempre chegam as decisões que mudam o eixo do mundo. Pequim estuda proibir que suas startups de inteligência artificial recebam investimento de fundos americanos, e a justificativa oficial mal disfarça o recado: IA virou ativo estratégico, e capital estrangeiro virou suspeito. Traduzindo do mandarinês burocrático para o português dos homens livres, o Partido Comunista acaba de decretar que o dinheiro do capitalista ianque é bom para financiar fábrica de sapato, mas não para financiar o cérebro digital que vai decidir o futuro da guerra, da vigilância e do comércio.
Olha, tem uma ironia deliciosa nisso. Durante trinta anos ouvimos que a China era o novo paraíso do livre mercado, que os comunistas tinham aprendido a lição, que o pragmatismo de Deng Xiaoping havia sepultado Mao. Pois bem. Bastou a tecnologia ficar séria para o gato subir no telhado. Quando o que estava em jogo era camiseta da Hering e celular genérico, dólar americano era bem-vindo. Agora que o jogo é modelo fundacional, semicondutor de sete nanômetros e vantagem militar por uma década, a porta se fecha com a delicadeza de um cofre de aço. Mercado livre, quer dizer, é bom quando convém ao Estado. Quando não convém, era tudo encenação.
Do outro lado do Pacífico, a resposta é simétrica e igualmente reveladora. Washington já havia imposto suas próprias barreiras ao capital americano investindo em IA chinesa, sob a tese de que tecnologia é segurança nacional. Ou seja, os dois lados concordam numa coisa só: o investidor privado perdeu o direito de escolher onde aloca o próprio capital. O contribuinte americano não decide, o poupador chinês não decide, ninguém decide. Quem decide são os ministérios, as agências, os comitês de segurança. E toda vez que um comitê decide sobre onde o capital privado pode ir, o que se vê é a manchete do dia seguinte; o que não se vê é a startup que não nasceu, o pesquisador que foi trabalhar noutro ramo, a descoberta que ficou na gaveta.
Segue o dinheiro e você entende o arranjo. Quem ganha com essa blindagem chinesa? Os campeões nacionais já capitalizados, Baidu, Alibaba, os fundos do próprio Estado, os parentes bem posicionados do Partido. Quem perde? O engenheiro de vinte e oito anos com uma ideia brilhante que precisava de capital paciente e agora só terá capital dirigido. O capital dirigido, aliás, é sempre a mesma fábula: dinheiro de contribuinte distribuído por burocrata que nunca arriscou um centavo próprio, premiando projetos que agradam ao chefe político e punindo os que desagradam. Não é investimento, é mesada com cara de visão estratégica.
E aqui mora o engano civilizacional dos dois lados. Acredita-se que inteligência artificial vai nascer mais forte dentro de muralhas. É o oposto do que a história ensina. As grandes revoluções tecnológicas aconteceram onde o capital circulava livre, onde o talento migrava sem pedir licença, onde o errado podia falir rápido para o certo crescer rápido. Fechar as portas significa trocar a velocidade do mercado pela lentidão do planejamento, e planejamento central, me diz uma coisa, quando foi que ele entregou um produto tecnológico melhor que o de uma economia aberta? A resposta é nunca, e qualquer pessoa com memória de mais de quarenta anos se lembra do tamanho da tela da televisão soviética.
O que esse movimento revela, no fundo, é que o século XXI está abandonando a ficção do comércio global pacífico e retornando ao velho mercantilismo vestido de jaleco de laboratório. Dois impérios construindo fortalezas algorítmicas, cada um convencido de que vence quem se isolar melhor. O resultado provável é o oposto do anunciado: menos inovação, mais desperdício, preços mais altos, e uma humanidade que poderia ter uma inteligência artificial nascida da colaboração e recebe em troca duas inteligências artificiais nascidas da paranoia. Quando os Estados decidem que o capital tem pátria obrigatória, o que de fato perde nacionalidade é a liberdade do cidadão.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.