O site da alfândega chinesa atualizou silenciosamente a lista de frigoríficos americanos autorizados a exportar para Pequim, e o anúncio passou quase despercebido na imprensa que adora narrativas grandiosas sobre desacoplamento. Quer dizer, depois de anos de tarifaço, sanção recíproca, retórica de Casa Branca e discursos sobre reindustrializar a América com punho de ferro, a realidade voltou a fazer o que sempre faz, voltou a ignorar o decreto. A carne americana segue entrando no maior mercado consumidor do planeta porque o porco e o boi não entendem de geopolítica, eles entendem de preço, e o preço não obedece a comunicado oficial.

Olha, é fascinante ver como o vocabulário muda de acordo com a conveniência política. Quando o governo americano impõe tarifa, é defesa nacional. Quando o governo chinês renova licença, é pragmatismo. Quando o frigorífico americano comemora, é capitalismo. Quando o consumidor chinês paga mais caro pela proteína por conta dos jogos tarifários, é dano colateral aceitável. O que ninguém quer admitir é que a tal guerra comercial é teatro caro, onde os atores principais são lobistas dos dois lados do Pacífico que vendem a ideia de soberania alimentar enquanto faturam comissão em cada contêiner que cruza o oceano.

Me diz uma coisa, quem realmente ganha com esse arranjo? Os frigoríficos gigantes, que conseguiram garantia oficial de mercado e ainda usam o discurso patriótico para pressionar subsídio interno. Os burocratas de Pequim, que mantêm o controle sobre quem pode e quem não pode vender, transformando licença comercial em moeda de barganha política. Os escritórios de advocacia que cobram caro para navegar regulações criadas artificialmente. E quem perde? O pecuarista pequeno, que não tem músculo para conseguir licença de exportação; o consumidor americano, que vê o preço da carne flutuar ao sabor dos humores diplomáticos; e o trabalhador chinês, que paga mais caro pelo alimento porque o governo dele resolveu usar comida como arma.

A lição aqui é antiga e ninguém quer aprender. Quando dois governos brincam de regular o comércio entre si, a riqueza não desaparece, ela apenas muda de mãos, e nunca muda para as mãos certas. Sai do bolso de quem produz e de quem consome, entra no bolso de quem intermedia. Cada licença renovada é a confissão silenciosa de que a tarifa anterior era ineficaz, era inútil, ou pior, era um instrumento deliberado de transferência de renda travestido de política externa. A retórica do desacoplamento serve para o telão de coletiva de imprensa, mas na hora de abastecer a geladeira do cidadão comum, a ideologia some e o pragmatismo aparece.

O mais grotesco é o silêncio dos que se autodenominam defensores do livre comércio quando descobrem que livre comércio dá voto para o adversário. A direita protecionista descobriu o sindicalismo industrial, a esquerda intervencionista descobriu a indústria nacional, e no meio dessa confusão semântica, o mercado segue fazendo o que sempre fez, contornando o obstáculo, achando o caminho, alimentando a humanidade apesar dos governantes que insistem em atrapalhar. A alfândega chinesa renovou as licenças porque o estômago do povo dela falou mais alto que o discurso do partido. E essa é a única notícia econômica que importa.

No fim, cada carimbo de licença é uma derrota silenciosa do planejador central e uma vitória discreta da realidade econômica. Não venderam soja, não venderam algodão, não venderam carne porque algum estrategista geopolítico permitiu, venderam porque o consumidor do outro lado quis comprar e o produtor de cá quis vender, e nenhum decreto presidencial ainda conseguiu derrotar essa equação fundamental. O resto é fumaça, é pose, é manchete para distrair quem não entende que toda guerra comercial termina exatamente assim, com o mercado vencendo e o burocrata reescrevendo a história para parecer que foi ideia dele.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.