A história começa com um número pequeno, quase administrável, do tipo que cabe numa nota de rodapé do telejornal noturno: doze mortos numa mina de carvão na província de Shanxi. Dias depois, a contagem oficial pula para oitenta e dois. Setenta vidas que simplesmente não existiam na planilha inicial, setenta famílias que ficaram à espera enquanto burocratas decidiam quando seria conveniente revelar o tamanho real da carnificina. O regime que se vangloria de controlar cada grão de arroz, cada passo de cada cidadão via reconhecimento facial, cada mensagem em cada aplicativo, perde de vista setenta corpos no fundo de um poço. E ainda quer que você acredite que sabe planejar a economia de um continente inteiro.

Não é incompetência, é estrutura. Quando o Partido determina cota de produção de carvão para alimentar a máquina industrial que sustenta o mito do crescimento eterno, o gerente da mina tem duas escolhas: cumprir a meta empurrando trabalhadores para galerias inseguras, ou ser substituído por outro que cumprirá. Quando o acidente vem, e ele sempre vem, a mesma lógica que produziu o desastre passa a operar na contabilidade do desastre. Reportar doze é administrável. Reportar oitenta e dois na primeira hora derruba secretário provincial, atrapalha o congresso do partido, mancha o relatório anual. Então conta-se devagar, libera-se em parcelas, espera-se a manchete esfriar.

Olha, é o velho problema do cálculo impossível travestido de tragédia humana. Sem preços livres, sem propriedade privada da mina, sem responsabilidade civil real do operador, sem imprensa que possa entrar lá dentro sem permissão, a mina não é um empreendimento, é uma engrenagem. O mineiro não é um homem que negociou seu salário pesando o risco contra a remuneração num mercado de trabalho competitivo, é insumo. E insumo, quando some, vira ajuste de inventário. A diferença entre uma economia livre e uma economia comandada não está apenas no PIB ou na prateleira do supermercado, está em quanto vale a vida de quem produz a riqueza que o regime se atribui.

Quer dizer, o detalhe mais revelador é o eufemismo: erro na contagem inicial. Como se setenta cadáveres fossem uma vírgula deslocada numa declaração de imposto. A linguagem burocrática existe para fazer o intolerável parecer rotineiro, para transformar massacre em estatística e estatística em rodapé. Toda vez que um governo precisa inventar uma expressão técnica para descrever algo que qualquer mãe chamaria pelo nome verdadeiro, desconfie. O vocabulário do poder é sempre o primeiro indício do que o poder está escondendo.

E enquanto se debate aqui o nosso modesto autoritarismo tropical, com seus comissários de costumes e suas agências reguladoras que parem em cima de cada padaria, é bom lembrar que o modelo admirado por boa parte da nossa intelectualidade, aquele que supostamente combina capitalismo eficiente com Estado forte, é exatamente este: a mina que enterra oitenta e dois e conta doze, o trem-bala que descarrila e some das redes sociais em vinte minutos, o vírus que vaza de um laboratório que nunca existiu oficialmente. Não existe versão higienizada do controle total. Quem entrega a chave da própria liberdade em troca de promessa de eficiência sempre recebe de volta a ineficiência mais a ausência de liberdade.

O carvão de Shanxi vai continuar saindo, as cotas vão continuar sendo cumpridas, e os próximos setenta vão morrer na próxima galeria mal escorada porque a planilha precisa fechar. A única coisa que muda, quando muda, é a velocidade com que o mundo descobre. Setenta mortos não somem por acidente; somem por método.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.