A notícia é simples e reveladora. Uma revista que um dia se apresentou como farol do futuro tecnológico, que deveria estar investigando as entranhas do silício e os dilemas morais da inteligência artificial, dedica espaço nobre a ensinar como obter sessenta e sete por cento de desconto em rodas de exercício e cinquenta por cento em produtos recondicionados da marca Chirp. O jornalismo tech chegou ao estágio em que se confunde com encarte de supermercado, só que com tipografia mais cara e um verniz de pretensa sofisticação editorial.

Há algo de profundamente decadente nesse movimento. A grande imprensa de tecnologia, que já foi caixa de ressonância de engenheiros visionários, agora opera como extensão do departamento de marketing das marcas que deveria fiscalizar. O leitor que busca informação recebe afiliação. O que parecia reportagem é contrato comercial disfarçado, cada link clicado retornando uma comissão silenciosa ao veículo que finge apenas estar ajudando o consumidor a poupar uns trocados. Siga o dinheiro e a notícia desaparece, sobra o anúncio.

O espetáculo do cupom tem função ritualística. Ele oferece ao consumidor a ilusão de autonomia, de esperteza, de ter vencido o sistema ao digitar um código mágico no checkout. Mas o desconto de sessenta e sete por cento pressupõe um preço inflado que ninguém nunca pagaria cheio, a não ser o distraído. A economia prometida é, na verdade, a normalização de uma margem artificial que o vendedor já havia planejado entregar. O freguês sai feliz, convencido de que enganou o mercador, quando na verdade saiu com exatamente aquilo que o mercador queria que ele levasse, pelo preço que o mercador sempre pretendeu cobrar.

Enquanto isso, o que importa de verdade segue fora do radar. As grandes decisões sobre arquitetura de chips, sobre quem controla os modelos de linguagem que moldam a conversa pública, sobre a criptografia que protege ou expõe o cidadão comum, tudo isso passa longe das manchetes dessas revistas outrora respeitáveis. Investigar dá trabalho, contraria anunciante, custa acesso a evento de lançamento. Publicar lista de cupons, ao contrário, é barato, rende afiliação e mantém o leitor acostumado a consumir sem pensar. Pão e circo, versão algoritmo.

O consumidor brasileiro que ainda recorre a esse tipo de guia importado deveria fazer a conta antes de vibrar. Um rolo abdominal com desconto de dois terços, depois de convertido em real, somado ao frete internacional, ao imposto de importação, à taxa do cartão e à margem cambial, vira pechincha somente na imaginação de quem não pegou a calculadora. A ilusão de globalização do consumo esconde o imposto invisível que o cidadão paga por acreditar que tudo lá fora é mais barato. O cupom é a isca, a alfândega é o anzol.

Sobra, no fim, a constatação melancólica de que a tecnologia prometeu emancipar o indivíduo e, no caminho, construiu o mais eficiente mecanismo de domesticação já visto. Não pelos tanques, não pelas câmeras nas esquinas, mas pelo desconto progressivo, pela notificação de promoção relâmpago, pela engenharia comportamental que transforma cada compra em pequena liturgia de pertencimento. O homem livre comprava o que precisava. O homem conectado compra o que a plataforma decide que ele precisa, e ainda agradece pelo cupom.

Com informações da Wired. A análise e opinião são do O Algoz.