A Chrysalis Investments anunciou que vai abandonar o modelo tradicional de gestão terceirizada e passar a administrar internamente seu próprio portfólio. Traduzindo do economês para o português de gente: cansaram de pagar pedágio a quem não entregava estrada. É o tipo de decisão que, vista de longe, parece detalhe técnico de governança corporativa, mas que, vista de perto, escancara uma das mentiras mais bem vendidas das últimas décadas, a de que existe uma casta de iluminados em Londres e Nova York capaz de fazer o seu dinheiro render mais do que você mesmo faria se prestasse atenção.
Olha, a indústria global de gestão de ativos cresceu sobre uma premissa simples e cara, a de que o investidor comum, e mesmo o investidor institucional, é incompetente demais para tocar o próprio capital e precisa transferir essa tarefa a profissionais que cobram dois por cento ao ano para fazer pior do que um índice passivo. Por décadas isso funcionou porque ninguém media direito, porque os relatórios eram deliberadamente ilegíveis, e porque havia uma mística construída ao redor do gestor estrela, aquele sujeito de Patek Philippe que aparecia na Bloomberg falando de macroeconomia com cara de quem descobriu fogo. A conta, claro, sempre foi paga pelo cotista.
Quer dizer, quando se segue o dinheiro, o arranjo é antigo e conhecido. O cliente coloca o capital, o gestor cobra taxa fixa independentemente de performance, cobra taxa de performance quando bate um benchmark escolhido a dedo para ser fácil de bater, e ainda terceiriza pedaços da carteira para outros gestores que cobram suas próprias taxas em camadas sobrepostas, num esquema de bonecas russas em que cada matrioska come um pedaço da rentabilidade do coitado lá no fundo. Ao internalizar a gestão, a Chrysalis não está reinventando a roda, está apenas admitindo em voz alta o que muitos boards sabem em silêncio, que a relação custo-benefício do gestor terceirizado virou piada de mau gosto.
Há uma lição mais ampla aqui, e ela atravessa muito mais do que finanças. Toda vez que se cria um intermediário entre quem produz valor e quem recebe valor, surgem incentivos para que esse intermediário se perpetue mesmo quando deixa de ser útil. É assim com sindicatos que não defendem mais trabalhador, com agências reguladoras capturadas pelo regulado, com consultorias que vendem ao governo o diagnóstico que o governo encomendou, e com gestores que vendem expertise quando entregam apenas marketing. O conhecimento sobre o que fazer com o próprio capital, sobre o próprio negócio, sobre a própria vida, está distribuído entre os que têm pele em jogo, não concentrado em escritórios envidraçados onde alguém debate alocação tática enquanto olha o relógio para o squash das seis.
Me diz uma coisa, por que demoramos tanto para admitir isso? Porque romper com o intermediário exige coragem institucional, exige aceitar que a fatura dos últimos dez anos foi paga em troca de pouco, e exige assumir responsabilidade direta pelos próximos resultados, sem o conforto burocrático de poder culpar o gestor lá fora quando o número vier vermelho. É mais cômodo manter o arranjo, escrever no relatório anual que se contratou os melhores nomes do mercado, e seguir empurrando a decisão para a frente. Quem rompe com isso paga um preço político de curto prazo em troca de honestidade contábil de longo prazo, e essa é uma troca que poucas diretorias topam fazer.
A decisão da Chrysalis, portanto, não é apenas administrativa, é simbólica. Ela aponta para um movimento mais amplo de desintermediação que começou nos pagamentos, passou pela mídia, atravessou o varejo, e agora bate à porta da gestão de patrimônio. Quando o emperador descobre que está nu, costuma demorar até que tenha coragem de dispensar o alfaiate que cobrava por roupas invisíveis. Mas quando dispensa, raramente volta atrás, e os próximos clientes do alfaiate começam a olhar para o próprio guarda-roupa com olhos novos. O resto da indústria que se prepare, porque o cotista também sabe ler.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.