Cinco corpos no chão de um templo em San Diego, dois deles dos próprios suspeitos, e a máquina midiática já começa o ritual de sempre, aquele balé previsível em que se discute tudo, menos o essencial. Discute-se a religião das vítimas, discute-se o perfil dos atiradores, discute-se a "tensão social", discute-se o clima, discute-se até o tempo que faltava para o jantar. O que não se discute, jamais, é por que a única tarefa que o Estado moderno reivindica com exclusividade absoluta, o monopólio da força para proteger vidas inocentes, falha com tamanha regularidade que já virou paisagem.

Porque é isso que está em jogo, e convém repetir devagar para quem ainda acredita em conto de fadas cívico. O governo cobra imposto sobre tudo o que você compra, sobre o sal do seu pão e sobre o combustível do seu carro, sobre a herança que você deixa e sobre o ar que respira em forma de taxa ambiental, e em troca promete uma única coisa não negociável, que é proteger o sujeito que reza, o sujeito que trabalha, o sujeito que apenas vive. Quando dois homens armados entram numa mesquita e fazem um massacre antes que qualquer aparato oficial consiga reagir, o contrato está rompido. E contrato rompido por uma das partes deveria, em sociedades sérias, liberar a outra parte das obrigações. Mas o imposto continua chegando pontualmente no dia primeiro.

Olha, é preciso ter coragem de seguir o dinheiro. Os Estados Unidos torram bilhões em uma estrutura federal de segurança que cresce como tumor, em agências com siglas de três letras que se multiplicam como coelho em fazenda abandonada, em "programas de prevenção" que sustentam consultores, palestrantes, ongueiros e o exército de burocratas que nunca pegou em arma na vida mas vive ensinando os outros sobre violência. Esse dinheiro todo, que sai do bolso do encanador e do médico e do dono da padaria, financia uma máquina que não estava lá quando precisou estar. E não estava porque, como sempre, estava ocupada com outra coisa. Com diversidade, com inclusão de pronomes, com auditoria de "extremismo doméstico" contra mães que reclamam em reunião de escola.

Aqui aparece o truque mais antigo e mais eficaz da política contemporânea, aquele em que se desarma o cidadão honesto em nome da segurança e depois se chega tarde no local onde o cidadão honesto morreu. Repare que em nenhum momento da cobertura alguém perguntará o óbvio, que é se algum dos fiéis estava armado, se podia estar armado, se a lei local permite que um homem dentro da sua própria casa de oração tenha meios de defender a esposa e os filhos. O cidadão entrega a arma, o cidadão entrega o dinheiro, o cidadão entrega a confiança, e no fim entrega também a vida, porque o salvador prometido ficou preso no trânsito ou estava preenchendo formulário.

Há ainda o aspecto cultural, que é o mais profundo e o que ninguém quer tocar. Uma civilização que perdeu o senso de sagrado, que transformou templo em coisa exótica para reportagem de domingo, que confunde tolerância com indiferença e indiferença com virtude, é uma civilização que treinou seus filhos a olhar para uma mesquita, uma igreja ou uma sinagoga como se fossem cenário de novela. Quando o templo deixa de ser um espaço cujo respeito é instintivo e passa a ser apenas um endereço no Google Maps, o massacre vira possibilidade narrativa antes de virar tragédia real. A violência que explode num lugar de oração é o sintoma terminal de uma sociedade que esqueceu por que o lugar existia.

No fim, sobra a conta moral que ninguém quer assinar. O Estado falhou na única função que justifica sua existência, vai pedir mais poder para "evitar que se repita", vai propor mais leis que atingirão exatamente quem nunca atirou em ninguém, e em poucos meses o ciclo recomeça em outra cidade, em outro templo, com outras cinco famílias destruídas. Enquanto o cidadão aceitar pagar caro por proteção que não chega, vai continuar enterrando os seus e agradecendo ao coveiro pela eficiência.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.