Repare no tom. Um dirigente do banco central da zona do euro aparece na imprensa para dizer que está tudo bem, que o adiamento da votação do euro digital para junho não é motivo de preocupação, que o projeto segue seu curso natural. O cidadão europeu, que não pediu moeda digital nenhuma, que não foi consultado sobre moeda digital nenhuma, que nunca reclamou da cédula de vinte euros no bolso, é convidado a respirar aliviado porque a ferramenta que vai permitir rastrear cada centavo da sua vida privada sofreu um atrasinho protocolar. É como se o carcereiro viesse tranquilizar o preso informando que a reforma da cela atrasou, mas não se preocupe, as grades novas chegam no próximo trimestre.
A peça central deste teatro é a palavra escolhida: "não me preocupo". Quem não se preocupa é quem manda, nunca quem obedece. O funcionário graduado do banco central não se preocupa porque o euro digital já está construído na prática, falta apenas o carimbo político, e político, como se sabe, quando recebe projeto pronto de banco central, assina. A votação de junho não é deliberação, é formalidade. O parlamento europeu vai decidir sobre algo que os tecnocratas já decidiram, com software já desenhado, com infraestrutura já testada, com prestadores já contratados. A democracia entra como garçom, serve o prato já cozinhado e recebe aplauso por parecer que escolheu o cardápio.
Siga o dinheiro e o desenho fica nítido. Quem ganha com uma moeda digital de banco central? Primeiro, o próprio banco central, que deixa de depender dos bancos comerciais como intermediários e passa a ter linha direta com a carteira de cada europeu. Segundo, o Tesouro, que sonha há décadas com o fim do dinheiro físico, porque papel-moeda na mão do cidadão é o último refúgio contra imposto sobre poupança, contra juro negativo, contra confisco disfarçado de política monetária. Terceiro, a indústria de compliance, que vai faturar bilhões vendendo sistemas de monitoramento para identificar "transações suspeitas", o que em linguagem honesta significa qualquer gasto que o governo de plantão resolva não gostar. Quem perde? O cidadão anônimo que ainda podia comprar um presente, pagar um autônomo, ajudar um parente, sem que isso virasse linha numa planilha do Estado.
O argumento oficial é sempre o mesmo, e por isso mesmo desconfie. Dizem que é para modernizar, para competir com criptoativos, para proteger a soberania monetária europeia, para ajudar os excluídos do sistema bancário. Cada uma dessas razões é uma fantasia que cai no primeiro puxão. Modernizar o quê, se o cartão de débito já funciona há quarenta anos? Competir com criptoativos, se o objetivo é justamente matar os criptoativos que o cidadão usa para escapar do sistema? Soberania monetária, se a zona do euro já tem o euro? Excluídos bancários, se a exclusão bancária na Europa é estatisticamente irrelevante? Quando quatro justificativas diferentes apontam para a mesma solução, a solução já estava decidida antes das justificativas; as justificativas foram produzidas sob encomenda.
E aqui entra a parte que ninguém vê, que é sempre a mais importante. O que se vê é a promessa de conveniência, o aplicativo bonito, a transferência instantânea, o discurso de inclusão. O que não se vê é a capacidade de programar a moeda. Uma moeda digital soberana pode ter data de validade forçando você a gastar antes do fim do mês; pode ter restrição geográfica impedindo compras fora da sua região; pode ter restrição de categoria bloqueando combustível se você ultrapassou a cota de carbono; pode ter desconto automático se o governo decidir que você deve um imposto que você nem sabia que devia. Tudo isso é tecnicamente trivial, politicamente tentador e historicamente inevitável quando o poder tem a ferramenta. O burocrata que hoje jura que jamais usaria esses recursos é o mesmo burocrata que amanhã vai usar, porque ele não será o mesmo burocrata, será o sucessor dele, e o sucessor herda a ferramenta, não a promessa.
O adiamento para junho, portanto, não é alívio. É aviso. A engrenagem está montada, o calendário está apenas sendo ajustado, e quem se dá ao trabalho de vir a público tranquilizar a plateia sabe perfeitamente que há motivo para ela não estar tranquila. Quando o pastor diz ao rebanho que não há lobo, é hora de procurar o lobo, porque ele geralmente está atrás do pastor.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.