A Circle, aquela empresa que emite o stablecoin USDC e abriu capital com avaliação bilionária este ano, acaba de comprar a Tazapay, uma processadora de pagamentos B2B sediada em Singapura que movimenta vinte e cinco bilhões de dólares anuais entre exportadores, importadores e prestadores de serviço espalhados por mais de cento e setenta países. O anúncio veio embrulhado no jargão corporativo de sempre, sinergias, expansão de rails, integração de infraestrutura, mas o que está por baixo do papel de presente é bem mais interessante do que os comunicados oficiais admitem.

Traduzindo para quem não fala fintechês, a Circle está montando um sistema de pagamentos internacional paralelo ao SWIFT, aquele consórcio bancário belga que há cinquenta anos cobra taxas absurdas, demora dias para liquidar transferências e ainda funciona como braço armado da política externa americana quando o Tesouro dos Estados Unidos resolve punir algum país que caiu em desgraça. A Tazapay entra como a ponta que conecta o dólar tokenizado à economia real dos pequenos e médios exportadores asiáticos, africanos e latino-americanos que hoje são tratados pelos bancos correspondentes como incômodo, quando não como suspeitos por default.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. Cada dólar do USDC em circulação, e são mais de setenta bilhões deles, é lastreado em títulos do Tesouro americano de curto prazo. Ou seja, a Circle virou uma das maiores compradoras privadas de dívida americana do planeta, ganha o juro dessa carteira, e ainda por cima cobra do usuário final uma fração daquilo que o banco tradicional cobraria pelo mesmo serviço. É o arranjo mais elegante da década, o governo americano financia seu déficit vendendo papel para uma empresa que espalha seu próprio dólar digital pelo mundo, corroendo por dentro o monopólio bancário que ele próprio criou e regulamenta.

O detalhe delicioso é que essa migração não está acontecendo porque algum burocrata iluminado desenhou o futuro no PowerPoint. Está acontecendo porque exportador brasileiro cansou de pagar duzentos dólares e esperar quatro dias úteis para receber cinco mil de um cliente em Jacarta. Porque freelancer indiano prefere receber em stablecoin do que ver o banco reter trinta por cento do pagamento sob suspeita de terrorismo. Porque o comerciante nigeriano descobriu que consegue liquidar em segundos por uma fração do custo. A ordem emerge das escolhas de milhões de pessoas resolvendo problemas concretos, não do gabinete do próximo comitê de basileia.

E aqui está a ironia que ninguém em Brasília, em Frankfurt ou no BIS quer encarar de frente. Os mesmos reguladores que passaram uma década tentando estrangular as criptomoedas com relatórios sobre lavagem, evasão e risco sistêmico agora assistem, de queixo caído, a maior operação de dolarização voluntária da história moderna. O sujeito no Vietnã, no Líbano, na Argentina não precisa mais implorar por uma conta em dólar no banco local que vai negar dez vezes antes de aceitar. Ele baixa um aplicativo, converte sua moeda podre em USDC e pronto, está fora do alcance do banco central inflacionista da sua terra natal. É a fuga de capital democratizada, disponível para quem tem cinquenta dólares e um celular usado.

O Banco Central do Brasil, que gasta fortunas defendendo o Drex como se fosse a redenção monetária nacional, deveria olhar para essa aquisição e sentir um calafrio. Não porque o Drex vá competir com o USDC, isso é piada pronta, mas porque cada real que o brasileiro converter em stablecoin é um real a menos sob controle da Faria Lima e da Esplanada. Enquanto o Estado sonha em vigiar cada centavo com uma moeda digital estatal programável, o mercado já entregou a alternativa, e ela é mais rápida, mais barata e infinitamente mais discreta. A revolução monetária mais importante do século vinte e um não está sendo transmitida ao vivo, está sendo liquidada em blockchain enquanto o sistema antigo ainda discute o horário do próximo COPOM.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.