O banco americano cravou: a nova corrida nuclear não é mais sobre usinas-catedral de dez bilhões de dólares e vinte anos de obra, é sobre reatores modulares pequenos, fabricados em série, instalados em meses, alimentando data centers de inteligência artificial que consomem energia como cidade média. Cameco, Constellation, Vistra, BWX Technologies, a lista do Citi é basicamente o mapa de quem vai ganhar dinheiro enquanto a Europa enfrenta apagão e os Estados Unidos descobrem que renovável intermitente não roda servidor da OpenAI vinte e quatro horas por dia.

Olha que coisa curiosa. Durante quarenta anos, o mesmo establishment ambientalista que hoje implora por energia limpa fez de tudo para enterrar a única fonte limpa, densa e escalável que a humanidade já inventou. Fukushima virou desculpa para a Alemanha desligar reatores em perfeito funcionamento e comprar gás russo, financiando indiretamente a guerra na Ucrânia. Quer dizer, a virtude verde alemã custou bilhões em emissões extras de carvão e ainda ajudou a abastecer tanques. É o tipo de resultado que só uma boa intenção combinada com analfabetismo termodinâmico consegue produzir.

O que mudou agora não foi a consciência ambiental, foi a conta de luz dos hyperscalers. Microsoft, Amazon, Google, Meta perceberam que treinar modelo de linguagem consome o equivalente energético de pequena nação europeia, e que painel solar não funciona à noite, surpresa. Resultado: contratos bilionários assinados diretamente com operadoras nucleares, ressurreição de Three Mile Island, fila de pedidos para reatores modulares que ainda nem saíram do papel. O capital privado fez em dois anos o que trinta anos de conferência climática não conseguiram, porque seguiu incentivo real em vez de virtude declarada.

E o Brasil nessa história? Sentado em cima da sétima maior reserva de urânio do planeta, com tecnologia de enriquecimento próprio, uma estatal que mais parece museu e Angra 3 entrando em terceira década de obra inacabada. Cada vez que algum técnico tenta destravar o setor, aparece um deputado preocupado com a alma do átomo, um movimento social financiado por ONG estrangeira e três pareceres jurídicos sobre licenciamento. Resultado prático: importamos diesel para térmica enquanto urânio brasileiro descansa no subsolo, esperando o dia em que algum ministro descobrir que o século vinte e um já começou.

A trilha do dinheiro, como sempre, conta a verdade que o discurso esconde. Quem ganha com nuclear travado no Brasil? O lobby do gás, as térmicas a óleo combustível que cobram fortuna no horário de pico, os importadores de equipamento eólico chinês subsidiado, a indústria do parecer ambiental. Quem perde? O consumidor que paga a conta mais cara da América Latina, a indústria que não consegue competir, o sujeito da periferia que escolhe entre energia e comida. A regulação que se vende como proteção do meio ambiente é, na prática, reserva de mercado para incumbentes.

O Citi está dizendo aos seus clientes ricos onde colocar o dinheiro nos próximos dez anos. Cabe ao leitor entender que enquanto Wall Street monta posição em Cameco e Constellation, o brasileiro continuará financiando, via tarifa, o caprichoso fracasso da nossa política energética. A energia mais barata, mais limpa e mais densa que a humanidade conhece está disponível há setenta anos. Só não é usada onde a ideologia ainda manda mais que a física.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.