O Citi resolveu, na semana passada, abençoar Intel e AMD com novos preços-alvo e cravar que o mercado endereçável de CPUs vai bater US$ 132 bilhões até 2030. O número é redondo, a planilha é bonita, e o relatório saiu carimbado com a solenidade de quem está revelando segredos da natureza. Olha, me diz uma coisa: desde quando banco de investimento prevê tecnologia daqui a cinco anos com a mesma confiança com que prevê a próxima reunião do Fed? A resposta é simples. Não prevê. Encomenda.
Quem leu prospecto na década de 2000 sabe como funciona o ritual. O analista escreve, a mesa de operações posiciona, o cliente institucional compra, o varejo entra no topo, e quando a tese desmonta, ninguém é responsável porque "o cenário mudou". A grande sacada do relatório do Citi não está no número, está no que o número não mostra. Quem está comprado em Intel agora? Quem precisava de liquidez para sair de uma posição mal calibrada antes do próximo balanço? Siga o dinheiro, e o TAM de US$ 132 bilhões vira o que sempre foi: uma legenda para a transferência de risco do bolso institucional para o bolso do otário.
Tem ainda o problema técnico, que ninguém comenta porque dá trabalho. Projeção de TAM em semicondutores para cinco anos é uma piada que se conta nas mesas de café da própria indústria. Em 2019, ninguém previu que a ARM e os chips dedicados de IA da Nvidia iam reduzir a tese de CPU genérica a um nicho de servidor commodity. Em 2021, ninguém previu a crise de suprimento. Em 2023, ninguém previu que a TSMC ia ditar o ritmo do planeta inteiro enquanto a Intel patinava na própria fundição. Agora, em 2026, o mesmo tipo de profissional que errou três vezes seguidas garante que sabe como vai estar o mercado em 2030. A arrogância é tão grande que beira o cômico.
Vale lembrar como Intel chegou aqui. Décadas de quase monopólio, bilhões em subsídio americano via CHIPS Act, lobby pesado em Washington, e mesmo assim a empresa apanha de uma taiwanesa que opera com uma fração do capital político. Quando o governo entra para "salvar a indústria estratégica", o que ele faz, na prática, é congelar o incumbente ineficiente e atrasar o concorrente que faria o trabalho melhor. AMD subiu não porque a política industrial funcionou, subiu apesar dela, comprando engenharia da TSMC e fugindo da própria fundição da Intel como quem foge de incêndio. O resto é narrativa.
O que se vê é o título do Citi nos jornais. O que não se vê é o investidor que vai entrar agora, no topo de uma tese fatigada, financiando a saída de quem comprou Intel a vinte dólares e precisa de comprador a quarenta. O que não se vê é o capital que está sendo desviado de empresas menores, mais ágeis, talvez decisivas na próxima onda, para sustentar gigantes em estado terminal porque um analista resolveu projetar planilha até 2030. Mercado livre seria isso ser punido pelo preço. Mercado capturado por relatório de banco grande é isso ser premiado com fluxo institucional.
No fim, o leitor honesto fica com a pergunta que importa. Se o futuro fosse mesmo previsível em Excel, por que o analista que sabe está escrevendo relatório para os outros, em vez de estar numa praia em Saint Barts vivendo dos próprios acertos? A resposta dispensa diploma. O TAM de US$ 132 bilhões pode até existir em 2030. O que não vai existir é a memória de quem o prometeu hoje.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.